Dois anos após a tragédia e a economia e o turismo de Petrópolis, ainda sofrem reflexos negativos
Por Anna Beatriz Thomaz
Estoques e móveis perdidos, fachadas quebradas, funcionários e proprietários traumatizados. Esses foram apenas alguns dos problemas que os comerciantes de Petrópolis enfrentaram após a maior tragédia socioambiental já registrada no município, e que marcou para sempre o dia 15 de fevereiro de 2022. Como se não bastasse 35 dias depois, em 20 de março do mesmo ano, mais um baque desestabilizou a cidade após outra enchente e deslizamentos de terra catastróficos ocorrerem no município. Com destaque para os empresários e comerciantes que já tentavam reconstruir os negócios perdidos dias antes, e que entraram de vez em um ciclo longo de crise financeira.
“Era por volta das 16h começou a chover, mas até então uma chuva normal, e normalmente a chuva transborda longe da loja. Mas nesse dia estranhamos, porquê a água começou a subir na calçada da loja. Percebemos que tinha algo diferente, mas até então ficamos tranquilos” disse Izau Medina, sócio proprietário de uma loja de móveis no Centro de Petrópolis.
Na época a federação das indústrias do estado do rio de janeiro (FIRJAN) fez um levantamento do prejuízo do comércio, e os dados mostraram que a economia petropolitana sofreu uma perda de cerca de 600 milhões de reais, ou seja, 2% do produto interno bruto do município. Além disso, segundo o sindicato do comércio varejista de Petrópolis, de 300 estabelecimentos afetados com as chuvas, quase metade precisou de mais de seis meses para conseguir retomar as atividades. Izau, que é socio proprietário de uma loja de móveis localizada na Washigton Luiz, no centro de Petrópolis, e que foi uma das áreas mais afetadas nas enchentes, sofreu com inúmeros prejuízos financeiros após a tragédia. O petropolitano afirma que apesar da cidade já possuir um histórico de enchentes, ele não imaginava que presenciaria tamanha catástrofe. Afinal, em 35 anos de loja, Izau conta que o empreendimento nunca tinha sido atingido por alagamentos.
“Quando começou a entrar água dentro da loja, começamos a pegar o rodo e tirar alguma coisa. Mas já vimos que não daria conta. A água começou a subir a cada vez mais e começou a encostar nos móveis de dentro da loja. Foi quando começar a empilhar os móveis, colocando um sobre o outro, para tentar salvar alguma coisa. Mas a água já estava muito rápida. Os móveis que empilhamos, começaram a virar e tombar. Nesse meio tempo, colocamos os documentos em móveis mais altos, para tentar salvar, mas de nada adiantou porquê até o móvel mais alto da loja virou jogando tudo para a água e os documentos foram embora. Quando vimos a situação que estava a rua toda, falamos então que iriamos salvar a nossa vida, até porquê a água já estava com muita correnteza.” Relatou Izau, sobre o pânico vivido no dia 15 de fevereiro de 2022.
O comerciante ainda conta que foram momentos assustadores. Ele e os vendedores ainda tentaram salvar alguns produtos da loja, mas logo perceberam que isso não seria possível e buscaram abrigo na sobreloja do estabelecimento para se manterem em segurança. O prejuízo financeiro de Izau foi estimado em cerca de R$200 mil. Emocionado, Izau frisa que ele e os outros vendedores da loja precisaram sair pela porta de braços dados, para tentar salvar a vida. E quando eles estavam na sobreloja do prédio e olharam para fora, viram a porta de aço do comércio estourando e levando toda a mercadoria deixando a loja completamente vazia. Os proprietários Só conseguiram reabrir a loja 03 meses depois da tragédia. Hoje o comerciante afirma que desde a tragédia os dias não mais os mesmos, e que sempre há pânico e preocupação quando começa a chover em Petrópolis.
Vale lembrar que em março de 2022, a Prefeitura de Petrópolis firmou um acordo com a AgeRio, com o intuito de facilitar empréstimos para os empresários da cidade, com linhas de créditos de até R$ 500 mil, com juros baixos e em alguns casos, quase zero. Mas na época nem todos os empresários da cidade conseguiram o benefício.
E Petrópolis carrega nas ruas, as heranças deixadas pela família imperial, o que torna a cidade uma das regiões mais visitadas por turistas do mundo inteiro. São dezenas de pontos turísticos reconhecidos, e que fazem parte do patrimônio histórico nacional. Apesar disso, o setor, que é uma das principais atividades econômicas do município, ainda sofre com os impactos da tragédia de 2022. E de acordo com a presidente da associação de guias de turismo em Petrópolis, Raquel Neves, o segmento precisou passar por grandes adaptações após a tragédia. Ela informou a nossa equipe que após a tragédia de 15 de fevereiro de 2022, os roteiros de passeio de verão na cidade precisaram ser alterados por conta das maiores probabilidades de chuvas. “Nesse período a gente sempre verifica a questão do clima. E tendo probidade de chuva a gente sempre prioriza fazer passeios em locais fechamos, como museus. O medo da chuva ainda assola os petropolitanos e visitantes.” Raquel Neves, presidente da associação de guias de turismo em Petrópolis.

