Série “Adolescência”: uma perspectiva jurídica e psicológica sobre os temas abordados

Por Beatriz Magrani Sampaio – Advogada Criminalista & Juliana Lutte Martins Monnerat Loureiro – Psicóloga Clínica

Nos últimos anos, as produções audiovisuais voltadas para o público adolescente têm retratado com mais profundidade os desafios e dilemas dessa fase da vida

Nesse contexto, a série Adolescência, transmitida pela Netflix e atualmente em alta nas plataformas de streaming, apresenta um retrato impactante da influência da internet sobre os jovens, abordando temas como o movimento Red Pill, cyberbullying e a necessidade de supervisão parental no ambiente digital.

A produção conta a história de um garoto de 13 anos que é preso pelo assassinato de uma colega de classe. Além disso, mostra como os adolescentes são expostos a discursos misóginos e manipuladores dentro de comunidades online. Um exemplo disso é o movimento Red Pill, que se originou em fóruns e redes sociais e prega uma visão deturpada das relações de gênero, levando jovens a internalizarem crenças prejudiciais sobre masculinidade, relacionamentos e poder.

A série também aborda a construção social do que chamamos de “papel do homem” perante a sociedade, e quão agressivos alguns padrões impostos podem ser a longo prazo, incluindo a propagação da ideia de violência contra a mulher.

Sob uma perspectiva psicológica, é possível afirmar que os temas abordados na série exercem um impacto significativo no desenvolvimento emocional e social dos adolescentes, exigindo uma atenção cuidadosa por parte da sociedade. Observa-se que o tipo de influência ao qual o jovem é exposto pode contribuir para o desenvolvimento de comportamentos agressivos, dificuldades em estabelecer relações saudáveis e até mesmo transtornos emocionais, como ansiedade e depressão.

A facilidade e rapidez com que conteúdos digitais são disseminados demonstram a necessidade de um olhar mais crítico sobre o impacto da internet na formação da identidade dos jovens. Além disso, o discurso propagado por alguns movimentos, que hoje têm sido predominantes entre os jovens, pode contribuir para a normalização da violência contra a mulher, reforçando comportamentos abusivos e a desvalorização feminina.

Sobre isso, em uma entrevista dada ao site Tudum, da Netflix, um dos produtores da série, Stephen Graham, explicou que a ideia do roteiro surgiu justamente de notícias sobre o aumento de crimes de arma branca cometidos por adolescentes homens contra mulheres.

O relatório mundial anual promovido pela Organização das Nações Unidas revela que mais de 51 mil mulheres foram mortas por seus parceiros ou membros da família em 2023. Isso equivale a 140 mulheres mortas todos os dias.

Esses dados mostram que o assédio, exploração sexual, estupro, tortura, violência psicológica, agressões por parceiros ou familiares, perseguição e feminicídio, sob diversas formas e intensidades, fazem com que a violência contra as mulheres seja recorrente e presente em muitos países, motivando graves violações de direitos humanos e crimes hediondos.

No Brasil, o quadro não é menos preocupante. A construção de comportamentos legitimados socialmente para homens e mulheres cria e perpetua espaços onde as violências acontecem sempre que uma pessoa não se encaixa nos padrões esperados.

A causa da violência contra a mulher é entendida de diversas maneiras, e um dos pontos importantes abordados pela série é justamente a perspectiva do agressor. A produção traz à tona a problemática da construção social do homem desde a infância, destacando questões que constroem e normalizam o comportamento agressivo e, consequentemente, perpetuam a violência contra a mulher.

A psicologia clínica alerta para o fato de que a exposição prolongada a conteúdos como Red Pill e incel – uma referência a membros de uma subcultura virtual que se definem como incapazes de encontrar um parceiro romântico ou sexual, apesar de desejarem – pode levar adolescentes a internalizarem padrões de dominação e agressividade, afetando negativamente suas relações interpessoais e perpetuando ciclos de violência de gênero.

Outro aspecto crucial abordado na série é o cyberbullying, que se manifesta em ataques direcionados nas redes sociais, exposição de informações privadas e humilhação pública através de postagens e vídeos virais. A narrativa evidencia o impacto emocional devastador sobre as vítimas, que frequentemente desenvolvem quadros de ansiedade, depressão e até mesmo pensamentos suicidas.

O cyberbullying, inclusive, hoje é considerado crime no Brasil, através da Lei 14.811/2024, que tornou mais rígidas as penas para crimes cometidos contra crianças e adolescentes. Dentre as condutas, as práticas de bullying e cyberbullying passaram a constar no Código Penal, que agora prevê pena de multa e reclusão para os praticantes.

Percebe-se que as legislações têm tentado se adequar às novas problemáticas sociais advindas dos avanços tecnológicos e sociais. No entanto, é importante questionar os papéis sociais para além da imposição de legislações, para entendermos a origem e causa do problema. Isso porque, por vezes, a longo prazo, o que se percebe é que a criminalização, utilizada como política de segurança pública, não resolve problemas sociais enraizados.

Diante desse cenário, é imprescindível que a sociedade amplie as discussões sobre o papel das redes sociais e das plataformas digitais na propagação desse tipo de violência contra a mulher. Um dos grandes alertas da série é a necessidade de supervisão parental quanto ao uso da internet pelos adolescentes. O acesso irrestrito a conteúdos potencialmente prejudiciais pode influenciar negativamente a construção da identidade dos jovens, tornando essencial que pais e responsáveis mantenham um diálogo aberto sobre o que seus filhos consomem online. A falta desse monitoramento, conforme retratado na série, pode resultar em consequências graves, como manipulação por estranhos, chantagem virtual e adoção de comportamentos autodestrutivos.

Muitos fóruns de comunicação, como o “Discord”, considerado quase um submundo dos jovens, têm sido utilizados para instigar violência, automutilação e até mesmo golpes financeiros.

Nesse sentido, a série tem grande relevância ao trazer à tona temas pouco discutidos socialmente e que são hoje essenciais para pensar no futuro dos jovens e adolescentes, tanto dentro de suas perspectivas individuais quanto no impacto social a longo prazo. O avanço tecnológico faz parte da construção social e não vai parar. Para garantir que a internet seja um espaço de aprendizado e crescimento, é essencial que a mediação adulta aconteça de forma consciente, respeitosa e baseada no diálogo.

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