Eventos climáticos extremos serão mais frequentes

Aquecimento global tem alterado o clima e efeitos podem afetar Petrópolis

Os eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes e intensos devido ao aquecimento global, segundo especialistas. Um estudo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostrou que as chuvas intensas ocorreram com mais frequência nas últimas décadas no Brasil e a causa mais provável para é a ação do homem.

O dia 15 de fevereiro de 2022 trouxe um triste exemplo do que é esta nova realidade. Petrópolis, por vezes castigada por deslizamentos e enchentes, viu, neste dia, cenas inéditas. Foram mais de 258 mm de chuva em cerca de três horas, resultando em 235 mortes, o maior número já registrado no município por catástrofes ambientais.

Na Rua Washington Luiz, uma das mais atingidas, a altura da água chegou a quase dois metros acima da rua, destruindo via e causando prejuízos aos comerciantes. “Estamos aqui na rua há 34 anos. O máximo que a água já tinha chegado foi até a calçada. Nunca tinha entrado nem no degrau da loja. Foi a primeira vez”, contou o comerciante Fábio Oliveira, de uma loja de móveis.

Para o pesquisador Christovam Barcellos, coordenador do Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o que está sendo visto são fatos inéditos. Barcellos acredita que é necessário que se estude como as consequências do aquecimento global se aplicarão em cada região.

“O aquecimento global é a temperatura média na Terra, mas isso vai se manifestar diferente em cada região. Aqui no Estado do Rio de Janeiro, estamos próximos ao litoral, com uma barreira gigantesca, que é a Serra. Esse encontro dessas massas de ar quentes – e cada vez mais quentes – com mais umidade contra a serra, podem causar cada vez mais eventos extremos”, alertou.

Apesar dos desastres naturais serem mais frequentes nos últimos anos, a cidade já registra a fragilidade em relação às chuvas há algum tempo, com registros de enchentes até mesmo na época do Império. No dia 5 de fevereiro de 1988, um forte temporal castigou o município e deixou 171 mortos, o que era a maior tragédia já registrada na cidade até fevereiro de 2022.

Para o pesquisador da Fiocruz, ainda falta um mapeamento mais completo e detalhado da cidade, que é muito diversificada. Segundo Christovam, este levantamento deve levar em conta as questões das enchentes, mas também o grave problema do deslizamento de terra.

“Se a gente pensar tudo o que vem acontecendo nestas últimas enchentes, em comum, tem a questão terrível do deslizamento de encosta. Isso não é difícil de ser mapeado. É preciso levar em consideração a declividade da encosta, qual tipo de solo, se tem floresta coberta ou não. É urgente, para que se tome providências antes que aconteçam os desastres”, afirmou.

O último Plano Municipal de Redução de Riscos é de 2017. O documento é importante, pois traz um mapeamento das áreas vulneráveis da cidade. Segundo a Defesa Civil do município, o processo de atualização do plano foi encaminhado ao Departamento de Licitação, Compras e Contratos Administrativo (Delca) e está em andamento.

No fim de 2022, a Organização Meteorológica Mundial, ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), alertou que estes acontecimentos apontam para a necessidade de mais ações em relação à redução das temperaturas globais. Uma dessas medidas é o reflorestamento, já que o verde também absorve a emissão de gás carbônico.

Em Petrópolis, há ainda outra vantagem no replantio. “Esses projetos de reflorestamento, principalmente nas encostas, permitem estabilizar a temperatura e as raízes da vegetação permitem segurar um pouco as encostas e evitar o deslizamento. Além disso, a floresta retém água”, explicou o pesquisador Christovam Barcellos.

Em uma área urbanizada, os rios levam, em média, 30 minutos para encher. Já com a presença de árvores, a água fica segura e impede inundações, segundo o especialista.

Floresta Viva

O Programa Floresta Viva é desenvolvido pelas engenheiras agrônomas Carolina Rodrigues e Rafaela Santana e também entendeu a importância deste replantio. Com o objetivo de recuperar áreas e auxiliar no repovoamento das florestas destruídas, o projeto tem auxiliado o verde na cidade, com espécies próprias da Mata Atlântica.

“O programa Floresta Viva surgiu com as queimadas de 2020 e se intensificou com enchente de 2022, quando percebemos o quanto o reflorestamento pode ajudar a prevenir as catástrofes”, explicou Carolina.

“Devido à perda de grandes massas florestais, vitais para absorver CO2, gerar oxigênio e lutar contra as mudanças climáticas, o plantio intensivo de novas árvores torna-se necessário para evitar a perda de ecossistemas e frear a deterioração do planeta”, afirmam as engenheiras.

Poder Público

Ao Correio Petropolitano, o secretário municipal de Defesa Civil, Gil Kempers, destacou as ações da secretaria em relação à preparação para os eventos climáticos extremos, como o reforço das equipes operacionais, a locação de viaturas para atendimento e aprimoramento dos protocolos. Outro ponto foi a instalação de cancelas e sirenes ao longo do Rio Quitandinha, além de treinamento de primeiros socorros junto às comunidades.

“É muito importante destacar o Plano de Contingência, que foi escrito por todas as instituições e, a partir dele, todas as ações operacionais são descritas e as ações tomadas de acordo com a necessidade”, disse.

Por Wellington Daniel/Foto: Alexandre Neto – Folha Press

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