Cerca de dois anos após a tragédia, vítimas seguem sem apoio necessário
Enquanto isso, em São Sebastião (SP), um ano após uma tragédia que atingiu o município, 704 apartamentos para as vítimas estão em fase final de construção
Por Gabriel Rattes
Com menos de um mês para completar dois anos da maior tragédia que atingiu o município de Petrópolis, moradores seguem sem a assistência necessária. Segundo a presidente da Comissão das Vítimas das Tragédias da Região Serrana do Estado do Rio de janeiro, Claudia Renata Ramos, cerca de 3200 famílias ainda necessitam de uma moradia digna. Dentre essas, algumas ainda são remanescentes da tragédia de 2011, uma das maiores que já atingiu a Região Serrana.
“As medidas tomadas pela Prefeitura após as duas tragédias [2011 e 2022] não foram eficientes. Estamos com problema de receber verbas do Governo Federal, por meio do PAC Encostas, devido a uma falta de prestação de contas do PAC 1 e 2, desde 2012 até agora”, enfatizou Claudia, que também é presidente da OSC UMAS (União Por Moradia e Assistência Social). “Não melhorou nada. A gente vê que de 2011 até agora, quase nada foi feito. Estão com algumas obras de contenções se arrastando. Vai fazer dois anos da mais recente e nada. Se passaram 13 da mais antiga e quase nada mudou”, completou.
Em 15 de fevereiro de 2022, Petrópolis sofreu a maior tragédia registrada na história do município. Na tarde daquela terça-feira, durante um período de 6 horas, a cidade recebeu um volume de chuva, concentrado principalmente na sua região central, equivalente ao esperado para todo aquele mês. O resultado foram deslizamentos e enchentes, que deixaram um rastro de destruição na cidade e 235 mortos e 2 desaparecidos.
Segundo informações da repartição do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) no Rio de Janeiro, a cidade de Petrópolis registrou o maior volume de chuva em 24 horas desde 1952. Registrando 259,8 mm de chuva no dia 15 de fevereiro. Cerca de um mês depois, em março, novamente um forte temporal atingiu o município, aumentando em sete o número de mortos. Ao todo, foram registrados 242 mortos e mais de 640 pessoas ficaram desabrigadas entre os dois meses.
A Prefeitura de Petrópolis afirmou que desde então vem realizando ações preventivas, preparatórias e mitigatórias, tais como intervenções estruturais e não estruturais. Segundo eles, são mais de 180 grandes obras e cerca de 100 para reconstruir áreas e prevenir, de forma a diminuir os riscos de desastres na cidade. Também explicou que o município conta com 18 sirenes que alertam o risco de escorregamento e mais 04 sirenes que alertam o risco de inundação, todas elas fazem parte do Sistema de Alerta e Alarme, instalado em comunidades com áreas de risco.
“O que poderia ter sido diferente, é o preparo. Não é possível que de 2011 até agora a gente não tem ações eficazes em relação á tragédias. Não conseguimos que a população petropolitana saia de casa quando uma sirene toca, as famílias não tem a consciência que é preciso sair da área de risco e continuam construindo casas”, disse Claudia Renata.
“Não há uma fiscalização adequada nas comunidades por parte da Prefeitura. A gente tem reclamações de sirenes que não tocam e de casas Aluguel Social que não são vistoriadas e quando vão fazer a renovação contratual percebe que está interditada a muito tempo. Falta fiscalização como um todo, da Defesa Civil, da Secretaria de obras e do pessoal da Assistência Social”, afirmou.

Dois anos se passaram e nada mudou
Cerca de dois anos após o acontecido, a equipe do Jornal Correio Petropolitano esteve no Morro dos Ferroviários e também no Morro da Oficina, onde foi o maior foco de vítimas. Local onde também estão sendo realizadas obras de drenagem, estabilização e proteção de encosta, por parte da Administração Municipal, pelo valor de R$21.563.908,41, com um prazo de termino ainda este ano.
Ao chegar no local, um cenário similar ao de dois anos atrás, terras, escombros e restos de casas. Conversamos com um morador do Morro dos Ferroviários que não teve a casa diretamente atingida pela tragédia, mas vive em uma zona de risco.
O inspetor de disciplina em uma escola no Alto Independência, Carlos Raimundo, mora há 58 anos no local e estava trabalhando no momento da tragédia. “Quando eu cheguei na minha casa estavam todos meus vizinhos para o lado de fora da rua e todos assustados. Mas pela preocupação com meus animais e com a minha casa eu vim até ela ver como estava. Quando eu cheguei aqui, estava tranquila e meu animais no quintal. Não tinha noção do que tinha acontecido ao redor porque estava de noite e escuro e resolvi passar a noite aqui mesmo, eu e meu filho mais velho. No outro dia, quando clareou tudo, eu tive noção do que tinha acontecido”, explicou.
Carlos teve a casa interditada pela Prefeitura de Petrópolis, mas permanece no local com a irmã e dois cachorros. De acordo com ele, a proposta disponibilizada pela Prefeitura, por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com os moradores, não é o suficiente para recomeçar a vida. E diante do abandono, viveu até janeiro deste ano na casa, construída pelos pais, sem água ou suporte.
“Passou pela minha cabeça se mudar daqui sim. Só que se encontra dificuldade de alugar uma casa, porque na maioria das vezes a imobiliária ou o proprietário pede três meses de caução ou se encontra muitos lugares piores que aqui para alugar. Não tem para onde ir”, enfatizou Raimundo, explicando que muitos lugares não aceitam animais e ele não pode deixá-los para trás.
O TAC disponibilizado pela Administração Municipal pagaria R$ 90 mil pelas casas demolidas. “Não é nem pela minha casa, porque não é uma casa de luxo. Mas eu não aceitei pelo valor. Com 90 mil reais você não faz nada em Petrópolis. Pedi a eles que aumentassem o valor, para que então eu pudesse dar uma entrada em outra casa”, disse. Em relação ao Aluguel Social Carlos explica que não aceitou de primeira porque o auxílio tem um prazo de seis meses. “Nesse período não tem condições de uma pessoa se organizar, por isso eu não aceitei”, completou.
Em São Paulo serão entregues 704 apartamentos
Em contrapartida, o município de São Sebastião, em São Paulo, anunciou por meio das redes sociais que está preste a entregar 704 apartamentos para vítimas da tragédia que atingiu a cidade no dia 19 de fevereiro de 2023. “Em Petrópolis temos em torno de 3200 famílias precisando de moradia digna e segura, todos em Aluguel Social. Cerca de 340 ainda estão aguardando casa antes da tragédia de 2022, 120 são da tragédia de 2011 e cerca de 2900 da tragédia de 2022”, disse Claudia Renata.
Claudia explicou também que atualmente recebem auxílio pelo PAC e Minha Casa Minha Vida, mas que precisam desburocratizar muita coisa. “Se tem terreno, precisamos saber o porquê que não compra e não constrói as moradias. Tem que ser uma ação mais efetiva, porque são 13 anos da tragédia e não temos um prédio ‘subindo’. Em contrapartida, temos São Sebastião (SP) já as portas para a entrega de 704 unidades para as famílias que sofreram com as chuvas no ano passado”, enfatizou.
Questionada, a Prefeitura de Petrópolis não respondeu, até o fechamento desta edição, sobre os fatos apresentados na matéria.

