{"id":100818,"date":"2025-03-17T11:15:35","date_gmt":"2025-03-17T14:15:35","guid":{"rendered":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/?p=100818"},"modified":"2025-03-17T11:15:39","modified_gmt":"2025-03-17T14:15:39","slug":"petropolis-182-anos-de-um-imperio-inventado-para-poucos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/2025\/03\/17\/petropolis-182-anos-de-um-imperio-inventado-para-poucos\/","title":{"rendered":"Petr\u00f3polis: 182 anos de um &#8216;imp\u00e9rio&#8217; inventado para poucos"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foto: Acervo da FBN<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Petr\u00f3polis, conhecida por &#8220;Cidade de Pedro&#8221; ou &#8220;Cidade Imperial&#8221;, foi planejada l\u00e1 em 1845 para ser o ber\u00e7o da realeza e da nobreza da \u00e9poca. A fama de uma &#8220;Europa nas Am\u00e9ricas&#8221;, foi refor\u00e7ada no plano de Major J\u00falio Frederico Koeller que decidiu real\u00e7ar apenas as caracter\u00edsticas de uma p\u00f3lis erguida por m\u00e3os alem\u00e3es, que ainda hoje, se \u00e9 vis\u00edvel em quase toda esquina do centro hist\u00f3rico, atrav\u00e9s de marca\u00e7\u00f5es e monumentos contando orgulhosamente sobre o passado, invisibilizando os marcos da popula\u00e7\u00e3o negra, da classe trabalhadora e agricultora, apagando toda heran\u00e7a e mem\u00f3rias daqueles que participaram na constru\u00e7\u00e3o de cada etapa, e lutaram pela perman\u00eancia como indiv\u00edduos na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A maquete pensada a 182 anos atr\u00e1s, por motivos pol\u00edticos e idealistas, continua tentando sustentar a imagem de um Imp\u00e9rio, por\u00e9m essa leitura n\u00e3o \u00e9 consistente tendo em vista a popula\u00e7\u00e3o que vive dentro da sociedade petropolitana, de sua maioria afrodescendente. Nesse contexto, surgem grandes questionamentos sobre a exist\u00eancia centen\u00e1ria da cidade, que pode ser lida por outras vis\u00f5es, assim \u00e9 o que mostra a obra liter\u00e1ria &#8220;Petr\u00f3polis entre o conhecido e o (DES)conhecido&#8221; que traz diversos estudos, hist\u00f3rias e novas abordagens sobre a localidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Petr\u00f3polis utiliza muito os &#8216;usos do passado no tempo presente&#8217; e tira proveito disso, muito em fun\u00e7\u00e3o do turismo. Mas, esse passado que \u00e9 recuperado pela cidade, na pr\u00f3pria fala p\u00fablica \u00e9 recortado para atender determinados anseios pol\u00edticos. Ele n\u00e3o d\u00e1 conta, da complexidade da trajet\u00f3ria da cidade e muito menos da sociedade que se apresenta hoje. Pensar a perten\u00e7a, acaba se confundindo nessa media\u00e7\u00e3o e o que a gente identifica na hist\u00f3ria \u00e9 uma presen\u00e7a bastante forte de outros grupos que a fala p\u00fablica n\u00e3o cita. E \u00e9 nessa virada de chave que o livro vem, para trazer outras narrativas, outros protagonistas, outras resist\u00eancias, que vai exatamente pensar a constru\u00e7\u00e3o da p\u00f3lis a partir dessas exist\u00eancias&#8221;, ressalta o historiador Lucas Ventura da Silva, um dos criadores do livro.<\/p>\n\n\n\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do historiador Lucas Ventura e da Mestra e Doutora em Hist\u00f3ria, que possui diversas contribui\u00e7\u00f5es de estudiosos, que enxergam Petr\u00f3polis com outros olhos, aborda o aspecto de pol\u00edticas de mem\u00f3ria, conceito que tra\u00e7a uma linha temporal, onde marca o que deve ser lembrado, esquecido, silenciado na forma\u00e7\u00e3o de uma sociedade. A Mem\u00f3ria \u00e9 a capacidade de resguardar acontecimentos, sentimentos e lembran\u00e7as. Na sociedade ela \u00e9 uma ferramenta que ajuda a construir a identidade de um indiv\u00edduo e do coletivo, pois serve como par\u00e2metro para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cidade de quem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ecoa na estrutura da cidade, o sentimento de vazio e encapsulamento de mem\u00f3rias que ditam muito sobre o pertencimento do espa\u00e7o, que praticamente \u00e9 unilateralmente contado por uma narrativa embranquecida, vista atrav\u00e9s de pontos tur\u00edsticos, casar\u00f5es e palacetes, onde nas plaquinhas ou monumentos trazem feitos de bar\u00f5es, princesas, condessas, estudiosos e colonos, apagando a originalidade dessas constru\u00e7\u00f5es. Apesar de ter muitos espa\u00e7os que inicialmente eram formados por pessoas pretas como a Pra\u00e7a da Liberdade, Igreja do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos, entre outros, n\u00e3o h\u00e1 muitos resqu\u00edcios nos mesmos que demarcam o passado. Essa forma\u00e7\u00e3o resume bem o conceito de m\u00e1scara da mem\u00f3ria e o sil\u00eancio da &#8216;Cidade Imperial&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma parte do livro, A professora do Departamento de Antropologia da Universidade de S\u00e3o Paulo e Global Scholar, Lilia Moritz Schwarcz atrav\u00e9s do texto &#8220;Uma Petr\u00f3polis africana&#8221; traz uma foto do fot\u00f3grafo Revert Henrique Klumb como objeto de estudo, que faz as narrativas contadas estremecerem. &#8220;Por essas e por outras \u00e9 que a fotografia causa espanto. Nela, n\u00e3o est\u00e1 expl\u00edcita a sanha construtora, e tampouco est\u00e3o flagrados os pal\u00e1cios e grandes monumentos que costumam se colar \u00e0 imagem de Petr\u00f3polis, como se fossem tatuagem. No documento aparece em primeiro plano um homem negro, com seus p\u00e9s descal\u00e7os, possivelmente um escravizado. Ele \u00e9 tomado num momento de descanso, de fleuma, em uma das pontas daquela que \u00e9, ainda hoje, a mais prestigiada das avenidas da cidade: n\u00e3o por acaso, a &#8220;Avenida do Imperador&#8221;. A foto n\u00e3o devolve a imagem de uma Petr\u00f3polis aristocr\u00e1tica, palaciana e elitista, que queria fazer as vezes da Europa nos tr\u00f3picos. Ao contr\u00e1rio, nela, um homem negro trajando um bon\u00e9 que ecoa, quem sabe, sua na\u00e7\u00e3o, surge \u00e0 frente de uma cidade em constru\u00e7\u00e3o e feita por m\u00e3os africanas e afrodescendentes&#8221;, trecho do texto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Cidade imperial \u00e9 certamente a express\u00e3o mais est\u00fapida que eu j\u00e1 ouvi em toda minha vida! A lembran\u00e7a, perdida, sufocada pela mem\u00f3ria roubada. As ruas me contaram muito mais do que a escola. Onde a hist\u00f3ria foi distorcida na esperan\u00e7a de uma Europa. Que nunca foi minha, vagando por pal\u00e1cios riquezas e sofistica\u00e7\u00e3o. A quem? Para qu\u00ea? De quem? Enquanto uns se preocupam apenas em se manter \u00e0 margem, e entregar uma boa imagem, a fachada daquilo que chamavam de sociedade, e como se n\u00e3o bastasse as ruas em que ando homenageia escravocratas. Pertencente se faz todo ser que nasce e n\u00e3o o que domina&#8221;, trecho de uma poesia declamada pela poetiza Marrom, idealizadora do Slam Mojub\u00e1, no lan\u00e7amento do Livro: Petr\u00f3polis entre o conhecido e o (DES)conhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro \u00e9 um primeiro passo de um projeto que visa contar Petr\u00f3polis com outros olhos, ele estar\u00e1 dispon\u00edvel nas bibliotecas p\u00fablicas da cidade. Para mais informa\u00e7\u00f5es, e para quem desejar adquirir um livro f\u00edsico, pode entrar em contato com a p\u00e1gina do Instagram @Livro.Petr\u00f3polis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Acervo da FBN Petr\u00f3polis, conhecida por &#8220;Cidade de Pedro&#8221; ou &#8220;Cidade Imperial&#8221;, foi planejada<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":100819,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-100818","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100818","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=100818"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100818\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":100820,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100818\/revisions\/100820"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/100819"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=100818"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=100818"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=100818"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}