{"id":24528,"date":"2021-11-14T13:36:09","date_gmt":"2021-11-14T16:36:09","guid":{"rendered":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/?p=24528"},"modified":"2021-11-14T13:36:12","modified_gmt":"2021-11-14T16:36:12","slug":"dick-farney-100-anos-precursor-da-bossa-nova-foi-erudito-e-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/2021\/11\/14\/dick-farney-100-anos-precursor-da-bossa-nova-foi-erudito-e-popular\/","title":{"rendered":"Dick Farney, 100 anos: precursor da bossa nova foi erudito e popular"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">M\u00fasico \u00e9 conhecido como o Sinatra brasileiro pelos f\u00e3s<\/h3>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por Luiz Claudio Ferreira &#8211; Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil &#8211; Bras\u00edlia<\/h4>\n\n\n\n<p>Um ba\u00fa lotado de mem\u00f3rias resiste ao tempo. L\u00e1 dentro est\u00e3o as luzes dos palcos, os sons do violino, do piano e at\u00e9 da viola caipira. Est\u00e3o as influ\u00eancias da fam\u00edlia imersa em arte e at\u00e9 os sons de guerra. Misturam os ritmos e as amizades com Frank Sinatra, Carmen Miranda, Nat King Cole, Jo\u00e3o Gilberto&#8230; O cantor, compositor e multi-instrumentista brasileiro Dick Farney (apelido do carioca Farn\u00e9sio Dutra e Silva) fez carreira internacional, a partir da d\u00e9cada de 1940, com um vozeir\u00e3o em ternura. Jeit\u00e3o de <em>jazz<\/em> com bossa nova. Ele, que nasceu em 14 de novembro de 1921, completaria o seu centen\u00e1rio neste domingo (14). Um &#8216;Sinatra brasileiro&#8217;, dizem os f\u00e3s. Morreu em 1987, enquanto ainda trabalhava intensamente. Deixou legado, pelo menos 45 discos (n\u00e3o contando os estrangeiros), 395 m\u00fasicas gravadas e um ba\u00fa de lembran\u00e7as que n\u00e3o deixam sua hist\u00f3ria ser esquecida.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1427498&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1427498&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>O ba\u00fa existe de verdade, com anota\u00e7\u00f5es, m\u00fasicas e imagens que o organizado m\u00fasico deixou e est\u00e1 sob a guarda da sobrinha e afilhada do artista, a pesquisadora e pedagoga Mari\u00e2ngela Toledo, que assumiu a responsabilidade de garantir que a hist\u00f3ria do consagrado artista n\u00e3o deixasse jamais de ecoar. Ela, que organiza as mem\u00f3rias e mergulhou na hist\u00f3ria do artista, prepara uma biografia com mais de 400 p\u00e1ginas a ser publicada em 2022. A pandemia atrapalhou os planos de levar o livro <em>Algu\u00e9m como Tu<\/em>&nbsp;ao p\u00fablico no ano do centen\u00e1rio do artista. Revela\u00e7\u00f5es que constam na obra mostram o desassossego e a intensidade dele, fascinado pelo trabalho e pelas estrat\u00e9gias para produzir sem parar, ainda que fosse de fam\u00edlia abastada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO t\u00edtulo do livro n\u00e3o \u00e9 somente por causa da m\u00fasica que ele canta. Ele era \u00fanico mesmo. Um personagem incr\u00edvel\u201d, explica Mari\u00e2ngela. Ela quer fazer justi\u00e7a \u00e0 hist\u00f3ria singular do m\u00fasico, que fez carreira internacional, teve programa nos Estados Unidos, foi o precursor do samba-can\u00e7\u00e3o e da bossa nova, mas que hoje, na avalia\u00e7\u00e3o da sobrinha, n\u00e3o \u00e9 um nome t\u00e3o reconhecido como outros artistas brilhantes.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Desde crian\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando ainda era apenas o pequeno Farn\u00e9sio, aos tr\u00eas&nbsp;anos de idade, teve o primeiro contato com o violino. Ele passou a receber as aulas do pai, Eduardo Dutra, empres\u00e1rio e m\u00fasico, e que teria ainda outro filho artista que virou astro, o ator e m\u00fasico Cyll Farney (apelido do irm\u00e3o Cil\u00eanio). Dick, segundo registra a pesquisadora sobrinha, teve origem porque Farn\u00e9sio, com oito anos, gostava de imitar o cantor norte-americano Richard Dick Powell.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, descobriu o piano, ainda crian\u00e7a, e, em seguida,&nbsp;o canto. \u201cNunca passou por um conservat\u00f3rio. O que ele aprendia era em casa\u201d. Mari\u00e2ngela identifica que ele foi preparado para a m\u00fasica cl\u00e1ssica. Foi com esse norte que foi trabalhar nos Estados Unidos. Encantou no pa\u00eds estrangeiro diante da facilidade de lidar com o idioma ingl\u00eas. \u201cEle cantava nos <em>shows<\/em> e nas r\u00e1dios e, diante da aus\u00eancia de sotaque, havia quem acreditasse que ele n\u00e3o era brasileiro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Eis um cantor<\/h2>\n\n\n\n<p>Com 17 anos de idade, Farney foi estudar no Instituto Nacional de M\u00fasica, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. \u201cEle passou em primeiro lugar e foi estudar&nbsp;m\u00fasica com especializa\u00e7\u00e3o em teoria musical e solfejo [exerc\u00edcio de leitura das notas de uma partitura]. Aqui ele j\u00e1 estava preocupado em aperfei\u00e7oar o canto\u201d. Na avalia\u00e7\u00e3o da bi\u00f3grafa, a m\u00e3e dele, Iracema, \u00e9 quem descobriu que Dick era um cantor tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma hist\u00f3ria na d\u00e9cada de 1940 pouco conhecida no Brasil, segundo explica a pesquisadora, \u00e9 que Dick Farney se alistou no Ex\u00e9rcito Brasileiro e incorporou como soldado. Por muito pouco, n\u00e3o foi para a 2\u00aa Guerra Mundial. O pai, desesperado com a pretens\u00e3o do jovem, recorreu a amigos para que ele n\u00e3o fosse.&nbsp;O soldado acabou, contrariado, trabalhando nos bastidores no Rio de Janeiro, mas em contato com os militares que embarcariam para a It\u00e1lia. Mas, mais tarde, o som dele chegou aos combatentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele \u00e9 citado nos Estados Unidos at\u00e9 hoje no memorial da 2\u00aa Guerra. \u201cA Marinha americana, diante de&nbsp; problemas emocionais dos combatentes, promoveu a produ\u00e7\u00e3o de um disco voltado para esses militares em \u00e1reas de conflito. A voz de Dick Farney foi escolhida para esse disco [o <em>Victory Disk<\/em>, disco da vit\u00f3ria em tradu\u00e7\u00e3o literal].\u201d&nbsp;Foi&nbsp;distribu\u00eddo&nbsp;perto de um milh\u00e3o de discos. Imagina o Dick Farney e Frank Sinatra, dois grandes expoentes no auge do sucesso gravando juntos\u201d. Quem escolhia os artistas para serem gravados eram soldados. As m\u00fasicas de Dick foram escolhidas sete vezes pelos militares para compor os materiais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><em>Copacabana<\/em><\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 os 18 anos de idade, ele foi bastante ligado \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica. A erudi\u00e7\u00e3o (nem o gosto particular do pai) n\u00e3o o impediram de experimentar um jeito brasileiro de viver a m\u00fasica. No in\u00edcio dos anos 1940, foi <em>crooner<\/em> no Cassino da Urca na Orquestra de Carlos Machado. Aos 25 anos de idade, no ano de 1946, ocorreu um marco para a vida de Dick Farney&nbsp;e para a m\u00fasica brasileira. Ele gravou <em>Copacabana<\/em>, a convite de Braguinha, compositor da hist\u00f3rica can\u00e7\u00e3o, o que vai consagrar o g\u00eanero do \u201csamba-can\u00e7\u00e3o\u201d. O jeito com que ele cantou fez com que cr\u00edticos e p\u00fablico descobrissem que estariam diante de algo diferente. \u201cNaquela \u00e9poca, a pessoa ligava no r\u00e1dio e ouvia ou o samba de morro ou m\u00fasica tipo opereta ou a m\u00fasica sertaneja. Quando ele gravou <em>Copacabana<\/em> (uma das rar\u00edssimas letras da \u00e9poca que n\u00e3o tratavam de pessoas especificamente, mas de um lugar), com apoio de violinos, tratou-se de um estilo de m\u00fasica que n\u00e3o tinha nada parecido no Brasil. As revistas da \u00e9poca nominaram que seria um samba-can\u00e7\u00e3o. \u00c9 considerado o in\u00edcio da bossa nova. O samba-can\u00e7\u00e3o \u00e9 a raiz da bossa nova.\u201d<br><br>Com a fama, entre 1947 e 1948, foi para os Estados Unidos e era participante fixo de programa da NBC. No Brasil, ele sabia que o mercado tamb\u00e9m havia se aberto ao talento dele. Os m\u00fasicos que abra\u00e7aram o estilo eram os astros daqueles anos dourados. Com direito at\u00e9 a falsas rivalidades entre eles, como ocorreu no caso entre Dick Farney e L\u00facio Alves, astros da gravadora Continental, que eram muito amigos. \u201cUm ficou na casa do outro quando moraram em Nova York. Entre eles, n\u00e3o havia nenhum estranhamento. Muito pelo contr\u00e1rio. Mas, a gravadora pediu que Billy Blanco e Tom Jobim compusessem algo que pacificasse os f\u00e3-clubes\u201d, explica Mari\u00e2ngela Toledo. A m\u00fasica <em>Tereza na Praia<\/em>, obra-prima da m\u00fasica brasileira, teve os vocais divididos entre os ditos rivais. \u201cEssa m\u00fasica inclusive foi composta l\u00e1 na casa do tio Dick e traz a hist\u00f3ria de dois amigos que namoraram a mesma mo\u00e7a. S\u00f3 que os dois n\u00e3o brigam por ela e descobrem que ambos foram enganados.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Astro<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1959, ele tinha um programa na TV Record, o <em>Dick Farney Show<\/em>. Em 1965, esteve na nova TV Globo, com o programa <em>Dick e Betty <\/em>(a atriz Betty Faria). Dick Farney fazia vers\u00f5es de m\u00fasicas estrangeiras, compunha e cantava para filmes no cinema e tinha intensa atividade em casas de <em>show<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro no Rio de Janeiro, depois em S\u00e3o Paulo. \u201cEle n\u00e3o parava de forma alguma. Apesar de ser um astro, era uma pessoa discreta e t\u00edmida. Era um homem muito carinhoso com a fam\u00edlia\u201d, diz a sobrinha que o conheceu depois que ele casou com a tia, Zean, na d\u00e9cada de 1970. Para ela, inclusive, ele pediu ao amigo Billy Blanco que compusesse a m\u00fasica <em>A Aeromo\u00e7a<\/em>, profiss\u00e3o da esposa quando o casal se conheceu. \u201cTV, r\u00e1dio, casas de espet\u00e1culo\u2026 a rotina de Farney era estar no palco\u201d, conta. Inclusive, at\u00e9 na d\u00e9cada de 1980, quando a fam\u00edlia pedia que ele diminu\u00edsse o ritmo. Com 65 anos de idade, foi internado ap\u00f3s um <em>show<\/em> em que sentiu dor e dificuldade de respirar. Morreu de um agravamento de um edema pulmonar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">F\u00e3s<\/h2>\n\n\n\n<p>Dick Farney deixou uma legi\u00e3o de f\u00e3s que, hoje, se procuram na internet para resgatar m\u00fasicas, hist\u00f3rias, imagens e sons do astro. Entre os principais grupos de devo\u00e7\u00e3o ao artista, <strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sinatrafarney\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uma das p\u00e1ginas<\/a><\/strong> (hoje com mais de cinco mil membros), re\u00fane pessoas de diferentes idades e celebram tamb\u00e9m o tempo prodigioso de can\u00e7\u00f5es daqueles anos dourados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A curiosidade \u00e9 que esse grupo foi iniciativa de um jovem professor de hist\u00f3ria e designer gr\u00e1fico. O carioca Rodrigo Manh\u00e3es, de 35 anos, aproximou-se da obra de Farney a partir da influ\u00eancia da m\u00e3e. \u201cHoje pouco se fala do Dick Farney. Desde crian\u00e7a, eu ou\u00e7o Sinatra, Dolores Duran e ele, entre outros. Eu particularmente gosto muito dele cantando as m\u00fasicas do Billy Blanco\u201d. Entre as m\u00fasicas preferidas de Manh\u00e3es&nbsp;est\u00e3o <em>Sinfonia do Rio de Janeiro<\/em>, e tamb\u00e9m <em>Copacabana <\/em>e<em> Tereza na Praia<\/em>. \u201cEle tem maciez na voz e toca piano magistralmente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu e minha esposa gostamos dessas obras <em>vintage<\/em>. Aprecio muito o <em>jazz<\/em>. Como eu gostava desse estilo, tamb\u00e9m passei a admirar o \u2018Sinatra Brasileiro\u2019, que \u00e9 o Dick Farney\u201d. Para ouvir mais do que o LP na vitrola, resolveu formar o grupo no Facebook. \u201cEu n\u00e3o imaginava que ia crescer tanto. Todos os dias pelo menos 100 pessoas entram. A cada <em>post<\/em>, recebemos muitos coment\u00e1rios. Muitos s\u00e3o de idosos que testemunham ter assistido a<em> shows<\/em> e falam de saudade\u201d. Nostalgia, ba\u00fas remexidos e troca de lembran\u00e7as para que, de novo, possam preservar a mem\u00f3ria do artista.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/7799000\/?utm_source=embed&amp;utm_campaign=visualisation\/7799000\"><\/a>Edi\u00e7\u00e3o: Alessandra Esteves \/ Nath\u00e1lia Mendes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00fasico \u00e9 conhecido como o Sinatra brasileiro pelos f\u00e3s Por Luiz Claudio Ferreira &#8211; Rep\u00f3rter<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":24529,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-24528","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-outras-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24528","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24528"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24528\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24530,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24528\/revisions\/24530"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24529"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}