{"id":30365,"date":"2022-02-15T15:57:15","date_gmt":"2022-02-15T18:57:15","guid":{"rendered":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/?p=30365"},"modified":"2022-02-15T15:57:17","modified_gmt":"2022-02-15T18:57:17","slug":"pesquisa-aponta-aumento-do-racismo-nas-abordagens-policiais-no-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/2022\/02\/15\/pesquisa-aponta-aumento-do-racismo-nas-abordagens-policiais-no-rio\/","title":{"rendered":"Pesquisa aponta aumento do racismo nas abordagens policiais no Rio"},"content":{"rendered":"\n<p>De volta \u00e0s ruas do Rio de Janeiro depois de 20 anos, a pesquisa Elemento Suspeito indicou o agravamento do racismo nas abordagens policiais e, por consequ\u00eancia, em todo o ciclo da justi\u00e7a criminal. O primeiro levantamento, coordenado pelo Centro de Estudos de Seguran\u00e7a e Cidadania (Cesec), foi publicado em 2003 e na edi\u00e7\u00e3o divulgada nesta ter\u00e7a-feira (15) recebeu o subt\u00edtulo Negro trauma: racismo e abordagem policial no Rio de Janeiro.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1442303&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1442303&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Os dados apontam que, apesar de os pretos e pardos somarem 48% da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, 68% das pessoas abordadas andando a p\u00e9 e 71% no transporte p\u00fablico s\u00e3o negras. Al\u00e9m disso, 17% j\u00e1 foram paradas mais de 10 vezes e 15% de seis a dez vezes. Entre os que tiveram a casa revistada pela pol\u00edcia, 79% eram negros, bem como 74% dos que tiveram um parente ou amigo morto pela pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a cientista social Silvia Ramos, coordenadora do Cesec, os novos dados s\u00e3o \u201cabsolutamente impressionantes\u201d e apontam para a abordagem sempre das mesmas pessoas, gerando um ciclo vicioso no sistema de justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA abordagem \u00e9 o come\u00e7o de um mecanismo da \u00e1rea da justi\u00e7a criminal. A pessoa come\u00e7a sendo abordada, os abordados s\u00e3o mais presos em flagrante, que s\u00e3o levados \u00e0 delegacia e s\u00e3o indiciados por delegados que confiam na palavra daquele policial, de que aquele menino negro da favela fazia parte de uma quadrilha criminal. Na justi\u00e7a s\u00e3o os mais condenados e assim nossas cadeias est\u00e3o cheias de jovens negros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"pesquisa\">Pesquisa<\/h2>\n\n\n\n<p>Para a pesquisadora, existe uma cultura racial nas atividades policiais e ela come\u00e7a com as abordagens e revistas constrangedoras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando a pol\u00edcia aborda uma pessoa, \u00e0s vezes faz uma revista corporal: m\u00e3o na parede, abre as pernas e apalpa a pessoa \u00e0 procura de armas e drogas. \u00c9 um procedimento bastante invasivo e pode ser muito violento, muitas vezes extremamente constrangedor e humilhante. A gente descobriu que mais de 70% desses revistados s\u00e3o negros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Silvia destaca que a pr\u00e1tica policial de abordar sempre os jovens negros e pobres moradores de favelas, al\u00e9m de racista, \u00e9 incompetente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA pol\u00edcia acaba n\u00e3o prendendo os criminosos e fazendo desse mecanismo, que \u00e9 a abordagem policial, o \u00fanico mecanismo policial. Quando, na verdade, n\u00f3s sabemos que o que desarticula as quadrilhas e o crime s\u00e3o as investiga\u00e7\u00f5es, a intelig\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 o trabalho de estar todos os dias nas ruas da cidade com aquele olho que olha sempre para o menino negro como se ele fosse suspeito e produz com esse menino negro o tempo todo uma pr\u00e1tica traum\u00e1tica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a pesquisadora, as situa\u00e7\u00f5es de constrangimento e viol\u00eancia policial contra a popula\u00e7\u00e3o negra pioraram nos \u00faltimos 20 anos, ao passo que a seguran\u00e7a n\u00e3o melhorou para a cidade como um todo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"dados\">Dados<\/h2>\n\n\n\n<p>A pesquisa entrevistou 739 pessoas e aprofundou o levantamento com grupos de jovens moradores de favelas, entregadores, motoristas de aplicativos, mulheres e policiais. Com a an\u00e1lise de idade, g\u00eanero, cor, classe e territ\u00f3rio, os pesquisadores identificaram o perfil t\u00edpico das pessoas abordadas pela pol\u00edcia. S\u00e3o os homens negros, com at\u00e9 40 anos, moradores de favela e periferia e renda de at\u00e9 tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todas as situa\u00e7\u00f5es analisadas, a propor\u00e7\u00e3o de negros abordados pela pol\u00edcia \u00e9 sempre maior do que a de brancos. Os negros s\u00e3o 74% dos abordados em&nbsp;<em>vans<\/em>&nbsp;ou kombis, 72% nos carros de aplicativos, 68% andando de moto e 67% em evento ou festa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os policiais militares que participaram da pesquisa afirmaram que identificam como \u201celemento suspeito\u201d o indiv\u00edduo com \u201cbigodinho fininho e loirinho, cabelo com pintinha amarelinha, blusa do Flamengo, bon\u00e9\u201d. Para os pesquisadores, a descri\u00e7\u00e3o corresponde \u00e0 est\u00e9tica dos jovens das favelas e periferias cariocas.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres s\u00e3o menos abordadas que os homens, com 16% do total. Mas quando mulheres e mulheres&nbsp;<em>trans<\/em>&nbsp;s\u00e3o paradas por agentes de seguran\u00e7a, elas passam por intimida\u00e7\u00f5es e t\u00eam suas bolsas revistadas, com os pertences muitas vezes espalhados no ch\u00e3o. As participantes da pesquisa tamb\u00e9m relataram que policiais costumam procurar drogas nos cabelos tran\u00e7ados no estilo africano, usados por jovens negras e negros.<\/p>\n\n\n\n<p>Na compara\u00e7\u00e3o com os dados de 2003, as amea\u00e7as nas abordagens passaram de 6,5% para 23% e a experi\u00eancia de ter uma arma apontada para o indiv\u00edduo subiu de 9,7% para 28%. Ter sido parado mais de dez vezes passou de 8,2% para 17% e ter sido revistado subiu de 36,9% para 50%.<\/p>\n\n\n\n<p>Silvia Ramos destaca o impacto psicol\u00f3gico que a rotina policial imp\u00f5e aos jovens negros, que mudam seus h\u00e1bitos apenas para evitar as abordagens, evitando inclusive o uso de acess\u00f3rios como bolsas e roupas que podem se enquadrar no estere\u00f3tipo do \u201celemento suspeito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c0s vezes a pessoa nem \u00e9 abordada, mas o medo de ser abordada faz com que ela mude de percurso, que ela nem saia na rua, que tenha medo ou vergonha de sair com amigos ou a namorada porque pode sofrer um procedimento humilhante\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre as opera\u00e7\u00f5es policiais, a pesquisa indicou que 80% dos entrevistados acreditam que elas precisam existir, mas 97% discordam que a pol\u00edcia possa ferir e matar pessoas durante as a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa completa est\u00e1 dispon\u00edveis no&nbsp;<em>site<\/em>&nbsp;do<a href=\"https:\/\/cesecseguranca.com.br\/livro\/negro-trauma-racismo-e-abordagem-policial-no-rio-de-janeiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;Cesec<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"respostas\">Respostas<\/h2>\n\n\n\n<p>Em nota, a Secretaria de Estado de Pol\u00edcia Militar informou que a corpora\u00e7\u00e3o tem a miss\u00e3o central de \u201cdefender a sociedade do Rio de Janeiro\u201d e que as a\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u201cbaseadas em protocolos r\u00edgidos, treinamentos e orienta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA maioria do contingente policial militar vem das classes de base da sociedade, incluindo as comunidades carentes, o que torna nossos policiais parte do contexto estrutural, hist\u00f3rico e social em que atuam\u201d, informou a Pol\u00edcia Militar, destacando que \u201ca corpora\u00e7\u00e3o foi uma das primeiras institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do pa\u00eds a ser comandada por um negro e hoje mais da metade de seu efetivo de pra\u00e7as e oficiais \u00e9 composto por afrodescendentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pol\u00edcia Civil informou que n\u00e3o trabalha com abordagens e ostensividade, que s\u00e3o o foco da pesquisa, exercendo a fun\u00e7\u00e3o de pol\u00edcia judici\u00e1ria, \u201cque realiza investiga\u00e7\u00f5es baseadas em Intelig\u00eancia e n\u00e3o na ra\u00e7a, credo ou qualquer outra caracter\u00edstica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"casos-recentes\">Casos recentes<\/h2>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia das for\u00e7as de seguran\u00e7a contra pessoas negras se mostra em epis\u00f3dios recentes registrados no Rio de Janeiro. Ontem (14), o vendedor de doces\u00a0Hiago Macedo de Oliveira Bastos, de 22 anos, foi baleado e morto por um policial militar fora de servi\u00e7o, em frente \u00e0 esta\u00e7\u00e3o das barcas de Niter\u00f3i, na regi\u00e3o metropolitana.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 6, o\u00a0entregador Yago Corr\u00eaa de Souza, de 21 anos, foi preso ap\u00f3s comprar p\u00e3o no Jacarezinho, na zona norte da capital. Ele foi acusado do crime de tr\u00e1fico de drogas e ficou dois dias detido, estando ainda em liberdade condicional.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do m\u00eas, o\u00a0trabalhador Durval Te\u00f3filo Filho, de 38 anos, foi morto a tiros por seu vizinho, o sargento da Marinha Aur\u00e9lio Alves Bezerra, quando tirava a chave da mochila para abrir o port\u00e3o da pr\u00f3pria casa, no bairro Coluband\u00ea em S\u00e3o Gon\u00e7alo, na regi\u00e3o metropolitana. O sargento alegou que confundiu o vizinho com um assaltante.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De volta \u00e0s ruas do Rio de Janeiro depois de 20 anos, a pesquisa Elemento<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":30366,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-30365","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-outras-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30365"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30365\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30367,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30365\/revisions\/30367"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30366"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}