{"id":56214,"date":"2023-03-27T12:18:02","date_gmt":"2023-03-27T15:18:02","guid":{"rendered":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/?p=56214"},"modified":"2023-03-27T12:18:03","modified_gmt":"2023-03-27T15:18:03","slug":"arte-com-atitude-e-o-trabalho-da-grafiteira-nenesurreal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/2023\/03\/27\/arte-com-atitude-e-o-trabalho-da-grafiteira-nenesurreal\/","title":{"rendered":"Arte com atitude \u00e9 o trabalho da grafiteira NeneSurreal"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Encarar a rua, para ela, \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia do graffiti<\/h3>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Publicado em 27\/03\/2023 &#8211; 07:51 Por Daniel Mello &#8211; Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil &#8211; S\u00e3o Paulo<audio src=\"https:\/\/tts-app.ebc.com.br\/media\/tts\/200955.mp3\"><\/h4>\n\n\n\n<p>M\u00e3e, av\u00f3, artista e \u201csapat\u00e3o\u201d s\u00e3o algumas das palavras que descrevem marcos da trajet\u00f3ria da grafiteira NeneSurreal. O&nbsp;percurso mistura a carreira art\u00edstica&nbsp;ao longo de mais de 30 anos a uma hist\u00f3ria de vida cheia de descobertas e obst\u00e1culos. \u201cEu gostaria de falar s\u00f3 da minha arte. Mas, a minha arte \u00e9 a minha luta. Elas est\u00e3o muito interligadas\u201d, diz, cercada de pinturas e esculturas que produziu&nbsp;em sua casa&nbsp;em Diadema, na Grande S\u00e3o Paulo.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1518820&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1518820&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras experi\u00eancias com o graffiti foram ainda no fim da adolesc\u00eancia. \u201cHoje, a gente est\u00e1 em um momento muito bom em que as mulheres est\u00e3o conseguindo realmente pintar. Mas, eu venho de uma gera\u00e7\u00e3o em que precisava provar que tinha capacidade para fazer. Ent\u00e3o, eu ia dar fundo em muro [pintura preparat\u00f3ria].&nbsp;Ia olhar, para ver se n\u00e3o tinha pol\u00edcia. Menos pintar de fato. E mesmo quando eu estava pintando de fato, ele [o trabalho] era direcionado [pelos grafiteiros homens]\u201d, conta sobre como era a cena da arte de rua \u00e0 \u00e9poca em que come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Esculpir em a\u00e7o<\/h2>\n\n\n\n<p>Nene estava crescendo na cena do graffiti quando teve sua filha&nbsp;Janine. \u201cO pai da minha filha fazia parte do movimento, n\u00e3o do movimento de cultura<em>&nbsp;hip hop<\/em>, mas do movimento de gangues. Ele foi assassinado aqui. Minha filha tinha 3 anos&#8221;. Nessa \u00e9poca, a artista tinha 19 anos e precisou procurar um emprego est\u00e1vel que garantisse o pr\u00f3prio sustento e a cria\u00e7\u00e3o da menina, que,&nbsp;hoje, tem 38 anos e \u00e9 m\u00e3e dos tr\u00eas netos da grafiteira \u2013 Helena, Fernanda e Henrique.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou trabalhando na copa de um grande hospital da capital paulista e chegou a se tornar instrumentadora cir\u00fargica, uma profiss\u00e3o que permitiu estabilidade financeira e tamb\u00e9m trouxe elementos para sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Foram mais de 20 anos trabalhando na \u00e1rea da sa\u00fade. Nesse per\u00edodo, o trabalho art\u00edstico se entrela\u00e7ou com o mundo das pr\u00f3teses em a\u00e7o cir\u00fargico.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio hospital, ao perceber o talento de Nene, passou a repassar alguns desses materiais para compor esculturas. \u201cEles doaram muito. Eu fiz muita coisa\u201d, enfatiza a artista sobre o material dif\u00edcil de ser trabalhado por ser extremamente resistente a t\u00e9cnicas convencionais. \u201cEu n\u00e3o consigo soldar, porque \u00e9 a\u00e7o cir\u00fargico. Ent\u00e3o, elas [as esculturas] s\u00e3o todas parafusadas\u201d, explica a respeito das obras montadas em bases de cimento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/0M1IBtezrpLMiBfjS-kgAfqcFgs=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_4712_0.jpg?itok=JB3RfS8w\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 10\/03\/2023, A grafiteira Nenesurreal fala sobre sua trajet\u00f3ria na casa ateli\u00ea em Diadema. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">A grafiteira Nenesurreal fala sobre sua trajet\u00f3ria na casa ateli\u00ea em Diadema &#8211;&nbsp;<strong>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>O processo de voltar a produzir arte e mesmo de se reconhecer como artista n\u00e3o foi f\u00e1cil. \u201cAs mulheres, depois que s\u00e3o m\u00e3es, acabou. \u00c9 quase o fim de qualquer sonho. Mesmo com tudo impedindo esse sonho, eu fiquei com esse bichinho e acreditei. Consegui voltar. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 querer. Foram v\u00e1rias coisas que aconteceram, v\u00e1rias mulheres pretas que estiveram ali, me fortalecendo, para eu voltar\u201d, diz sobre como&nbsp;foi, aos poucos, deixando a profiss\u00e3o est\u00e1vel para voltar a&nbsp;ter&nbsp;a carreira art\u00edstica como foco principal da vida.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reconhecer-se artista<\/h2>\n\n\n\n<p>Entre os caminhos e desvios, Nene resolveu cursar artes visuais. \u201cAchando que a faculdade me daria um certificado para legitimar que eu era artista. Falar e sentir que sou artista vem agora, h\u00e1 poucos anos. N\u00e3o que eu n\u00e3o me sentia artista, mas parecia muito audacioso, muito prepotente [me definir como artista]\u201d, comenta. No entanto, acabou aproveitando pouco do que estudou em sala de aula. \u201cA academia para mim acabou sendo no boteco. Porque no boteco era o rol\u00ea. No boteco eu fiz cenografia, eu troquei ideia como manusear um material que eu n\u00e3o sabia mexer. Eu tive ideias de projetos. A academia \u00e9 a rua para mim&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Encarar a rua \u00e9, para a artista, a pr\u00f3pria ess\u00eancia do graffiti. \u201cPegar o meu corpo, ir para a parede. A posi\u00e7\u00e3o que eu fico na parede, n\u00e3o tem salva [guarda], eu fico de costas para a rua. \u00c9 preciso&nbsp;ter&nbsp;atitude para isso. \u00c9 preciso&nbsp;ter&nbsp;coragem para isso\u201d, diz sobre pontos que considera centrais nessa forma de express\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Quest\u00f5es que, segundo ela, ganham ainda mais peso em corpos como o seu. \u201cA rua n\u00e3o \u00e9 um lugar para n\u00f3s mulheres pretas, para n\u00f3s popula\u00e7\u00e3o preta, principalmente se voc\u00ea tiver de frente para o muro fazendo coisas que o sistema n\u00e3o entende\u201d, diz ao diferenciar essa pr\u00e1tica com outros trabalhos que desenvolve. \u201cPintar em ateli\u00ea \u00e9 outro tempo. N\u00e3o precisa ficar preocupada com as costas\u201d, compara.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Lutas<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de destacar os riscos oferecidos pela express\u00e3o ao ar livre, Nene conta que tamb\u00e9m teve que travar lutas dentro do movimento hip hop. \u201cEsse movimento tamb\u00e9m \u00e9 machista. \u00c9 racista, por mais que seja um movimento preto. Porque voc\u00ea v\u00ea que quem movimenta esse movimento s\u00e3o os brancos\u201d, afirma<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 no campo das artes que ela precisou lidar com preconceitos.&nbsp;Hoje, com 56 anos de idade, revela que a rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria fam\u00edlia se tornou tempestuosa ao assumir nova orienta\u00e7\u00e3o sexual. \u201cEu me assumi sapat\u00e3o [l\u00e9sbica] com 50 anos. E at\u00e9&nbsp;hoje&nbsp;\u00e9 megaviolento. Eu fui violentada muitas vezes com essa palavra. E quando eu me apresento, eu me apresento com essa palavra. N\u00e3o \u00e9 para as pessoas me chamarem. \u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o do meu corpo. Eu venho h\u00e1 muitos anos tirando m\u00e1scaras&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da experi\u00eancia pessoal, a artista transformou a pr\u00f3pria casa em espa\u00e7o de acolhimento para pessoas LBGTQIA+. \u201cUma menina vem para S\u00e3o Paulo, precisa de um lugar para ficar porque vai fazer um trabalho. Ela pode ficar aqui\u201d, explica. Da fam\u00edlia, mant\u00e9m a lembran\u00e7a carinhosa da av\u00f3, como pessoa que a iniciou no contato com as artes e com o artesanato. \u201cO artesanato vem por conta da minha v\u00f3, que era do macram\u00ea, do croch\u00ea\u201d, conta ao apresentar as diversas linguagens que fazem parte do seu repert\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sonhar alto<\/h2>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, da laje da casa, Nene continua sonhando com novos projetos. Foi a partir dali, observando o bairro, que ela elaborou a s\u00e9rie que chama de&nbsp;<em>Cabe\u00e7udas<\/em>. \u201cA gente estava no m\u00eas&nbsp;de julho, \u00e9poca de pipa. Eu olhei para os moleques pretinhos, voc\u00ea nem enxergava eles, nada, s\u00f3 a silhueta. Todos com a cabe\u00e7a olhando para o c\u00e9u. Eu fiquei enlouquecida com essa cena\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram esses&nbsp;personagens com a cabe\u00e7a ovalada, inspirada&nbsp;na silhueta dos jovens que olham para o alto, que Nene escolheu para o mural em grandes dimens\u00f5es que pintou no teto do teatro da F\u00e1brica de Cultura do Jardim S\u00e3o Lu\u00eds, zona sul paulistana. O projeto exigiu muito da artista e da equipe de mulheres que pintou durante uma semana, pendurada em cordas de rappel na empena em formato de rampa. \u201cFoi um trabalho com muita dificuldade, por causa&nbsp;da quest\u00e3o do corpo, do sol, do vento. Porque voc\u00ea est\u00e1 solto l\u00e1 em cima\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>As sete personagens no teto do teatro t\u00eam ainda os cabelos em fios finos e encaracolados que Nene considera como uma de suas assinaturas, assim como os \u201colhos tristes\u201d de outras figuras que pinta pelas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto, contemplado por um edital que permitiu o mural na empena, inclui um document\u00e1rio, lan\u00e7ado no \u00faltimo m\u00eas&nbsp;de mar\u00e7o, que celebra a trajet\u00f3ria de Nene como uma das pioneiras do graffiti. Entre os reconhecimentos que acumula na carreira est\u00e1 a passagem pelo&nbsp;<em>Festival Queer Wien Woch<\/em>&nbsp;em Viena, na A\u00fastria; o<em>&nbsp;Pr\u00eamio Sabotage<\/em>, em 2016; e a homenagem concedida pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental A\u00e7\u00e3o Educativa, em 2018. Em 2021, um de seus trabalhos&nbsp;passou a fazer parte do acervo permanente da Pinacoteca Municipal de Mau\u00e1, na Grande S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Gra\u00e7a Adjuto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encarar a rua, para ela, \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia do graffiti Publicado em 27\/03\/2023 &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":56215,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-56214","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-outras-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56214","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56214"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56214\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56216,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56214\/revisions\/56216"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56215"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56214"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56214"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56214"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}