{"id":58450,"date":"2023-04-30T11:40:59","date_gmt":"2023-04-30T14:40:59","guid":{"rendered":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/?p=58450"},"modified":"2023-04-30T11:41:02","modified_gmt":"2023-04-30T14:41:02","slug":"ceramica-de-barro-e-tradicao-que-cria-lacos-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/2023\/04\/30\/ceramica-de-barro-e-tradicao-que-cria-lacos-no-brasil\/","title":{"rendered":"Cer\u00e2mica de barro \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o que cria la\u00e7os no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A saga de tr\u00eas mulheres contada no Sesc de S\u00e3o Paulo<\/h3>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por Elaine Patricia Cruz \u2013 Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil &#8211; S\u00e3o Paulo<audio src=\"https:\/\/tts-app.ebc.com.br\/media\/tts\/202704.mp3\"><\/audio><\/h4>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas mulheres, tr\u00eas hist\u00f3rias, tr\u00eas heran\u00e7as culturais. Dona Cadu, Dona Marciana e D\u00e9 Kariri Xoc\u00f3 n\u00e3o se conheciam. Uma baiana, outra amapaense e outra alagoana, elas sa\u00edram de suas casas para se encontrar esta semana no Sesc 24 de Maio, no centro de S\u00e3o Paulo. Ali, al\u00e9m de um bate-papo, foi exibido filme contando a hist\u00f3ria de cada uma. O que as uniu foi uma arte que aprenderam desde meninas e que esta semana elas vieram transmitir aos paulistanos: a ci\u00eancia de&nbsp;transformar o barro em belas lou\u00e7as e cer\u00e2micas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstamos colegas agora\u201d, contou a centen\u00e1ria dona Cadu. \u00c9 com as m\u00e3os que elas v\u00e3o moldando cada pe\u00e7a, como uma extens\u00e3o de seus corpos. E \u00e9 com as m\u00e3os que elas sustentam a casa: repetindo o que j\u00e1 fizeram suas antepassadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPara mim e para o meu povo Kariri Xoc\u00f3, ele [esse trabalho em cer\u00e2mica] representa uma coisa muito boa. Minha m\u00e3e teve 18 filhos. Criou esses 18 filhos com o barro, trabalhando na cer\u00e2mica. Igualmente eu, que s\u00f3 tive quatro [filhos]. Tamb\u00e9m ajudei a minha m\u00e3e a criar meus irm\u00e3os com a cer\u00e2mica. Me sinto muito orgulhosa de eu ser uma louceira de cer\u00e2mica\u201d, contou D\u00e9, \u00e0 reportagem da&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentadas lado a lado, aguardando o momento em que iriam se apresentar ao p\u00fablico do Sesc 24 de Maio, as tr\u00eas louceiras contam que foram pelas m\u00e3os de outras mulheres que receberam essas ben\u00e7\u00e3os. E \u00e9 por suas m\u00e3os que agora elas est\u00e3o repassando essa mesma tradi\u00e7\u00e3o para outras gera\u00e7\u00f5es de mulheres. \u201cEu j\u00e1 passei [essa t\u00e9cnica] de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o. Minha filha faz, minha neta faz, minha bisneta faz. Essa \u00e9 uma cultura para n\u00f3s do estado do Amap\u00e1\u201d, disse Marciana.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dona Cadu<\/h2>\n\n\n\n<p>Foi ainda menina que Ricardina Pereira da Silva, a dona Cadu, de 103 anos, que ainda carrega o sorriso e disposi\u00e7\u00e3o de menina, aprendeu a arte e o of\u00edcio de fazer lou\u00e7as. Moradora de Coqueiros, em Maragogipe, na Bahia, ela \u00e9 louceira h\u00e1 93 anos. Mostrando o muque nos bra\u00e7os para falar sobre o trabalho doloroso e dif\u00edcil dessa t\u00e9cnica, dona Cadu contou como iniciou os trabalhos em cer\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDesde a idade de 10 anos [fa\u00e7o as lou\u00e7as]. Aprendi com uma senhora do sert\u00e3o porque nasci e me criei em S\u00e3o F\u00e9lix. Essa senhora chegou do sert\u00e3o, da ro\u00e7a. Era ch\u00e3o velho, mas era ro\u00e7a. E a\u00ed ela sabia fazer. Eu todo dia ia doida para aprender. Todo dia eu pegava um molhinho do barro e levava para a casa de meus pais para fazer brinquedos. Mas eu estava pensando que ela n\u00e3o estava vendo eu levar o barro. Mas ela estava vendo. E ela me perguntou: \u2018voc\u00ea quer aprender?\u2019. Eu disse que queria. Com 15 dias que eu estava trabalhando com ela, eu j\u00e1 estava fazendo melhor do que ela. E a\u00ed fui trabalhar na casa dos meus pais\u201d, recordou ela.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/MDmM5XNCGddtmN5hZcVPd2IARC8=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_1521.jpg?itok=QiKefxm7\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 25\/04\/2023 - A ceramista baiana dona Cadu, de 103 anos, participa do Encontro de Louceiras: modelando gerac\u00f5es, com media\u00e7\u00e3o de Joana C\u00f4rtes, no SESC 24 de Maio. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Dona Cadu, de 103 anos, come\u00e7ou ainda menina no of\u00edcio. Foto:&nbsp;<strong>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Mas dona Cadu n\u00e3o conseguia viver s\u00f3 dessa arte. Teve que trabalhar duro \u2013 e muito \u2013 para conseguir sustentar a casa. \u201cEu trabalhava no barro, na ro\u00e7a e na pedreira, quebrando brita. E nisso me criei. Me casei com 22 anos e fui para Maragogipe. Sa\u00ed de S\u00e3o F\u00e9lix e fui para Maragogipe. E l\u00e1 at\u00e9 hoje estou\u201d, disse ela, refor\u00e7ando que nunca parou de amassar o barro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o, minha filha, eu tenho que trabalhar. Isso aqui significa muita coisa. \u00c9 disso que eu vivo. Estou nessa idade, mas ainda trabalho para sobreviver. Um sal\u00e1rio s\u00f3 n\u00e3o d\u00e1 para a gente viver n\u00e3o. Meu marido faleceu e eu n\u00e3o recebo a pens\u00e3o dele. Me aposentei pelo fundo rural, porque eu trabalhava na ro\u00e7a. A\u00ed eu tenho que trabalhar. Tem dia que eu estou cansada e penso: \u2018hoje eu n\u00e3o trabalho\u2019. Mas \u00e0s vezes eu penso: \u2018eu trabalhando e fazendo uma ou duas pe\u00e7as j\u00e1 est\u00e1 bom\u2019. A\u00ed eu trabalho\u201d, disse ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Cadu acorda cedo todos os dias na palho\u00e7a de dormir. Mas essa palho\u00e7a n\u00e3o \u00e9 onde ela fica o dia todo. Seu lugar mesmo \u00e9 a palho\u00e7a de trabalhar, para onde segue todos os dias para produzir mais de 10 pe\u00e7as [por dia], que depois ela vende para restaurantes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu tenho a palho\u00e7a de dormir e a de trabalhar. Ela [a neta] me leva uma mingauzinho e eu tomo. Mais tarde, ela diz: \u2018v\u00f3, vambora comer\u2019. E eu digo: \u2018eu n\u00e3o estou com fome ainda n\u00e3o\u2019. E ela: \u2018a senhora vai comer \u00e9 agora para n\u00e3o ficar fraca\u2019. Se ela deixar, eu fico l\u00e1 at\u00e9 \u00e0 noite. Mas ela n\u00e3o deixa\u201d, contou.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 bem pouco tempo, ela ainda se sentava ao ch\u00e3o para confeccionar as pe\u00e7as. Mas uma queda, que a fez quebrar o f\u00eamur, a impediu de continuar dessa forma. \u201cEu sentava no ch\u00e3o. Esses tempos \u00e9 que eu n\u00e3o estou podendo mais sentar no ch\u00e3o porque eu ca\u00ed na porta e quebrei o f\u00eamur. A\u00ed eu sento num banco para poder arranjar um tost\u00e3ozinho. Eu moro com a minha neta e eu digo para ela: \u2018quero fazer meu bolinho de barro\u2019. E ela: \u2018v\u00f3, vai te aquietar. Como \u00e9 que tu te senta no ch\u00e3o, v\u00f3?\u2019. A\u00ed eu digo: \u2018eu n\u00e3o vou sentar no ch\u00e3o n\u00e3o. Me bota em um banquinho assim que eu trabalho\u2019. E a\u00ed me fizeram um banquinho e uma mesinha e eu boto o seco em cima da mesa e fico rodando a t\u00e1bua\u2019\u2019, afirmou ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Para conseguir o barro, a centen\u00e1ria mulher precisa compr\u00e1-lo \u201cda m\u00e3o dos que t\u00eam fazenda\u201d. E paga caro por isso. \u201cUma ca\u00e7amba custa R$ 2 mil\u201d, avaliou ela. Mas antigamente, as coisas eram ainda mais dif\u00edceis. \u201cDe primeiro, o barro a gente pisava. Era pisado. Eu criei muque, olha [ela mostra os bra\u00e7os], de fazer for\u00e7a para pisar no barro e trabalhar. Mas depois a gente coloca na rua, os carros v\u00e3o passando e v\u00e3o pisando o barro. E a\u00ed eu j\u00e1 ponho pisado para dentro de casa. Isso j\u00e1 facilitou. Mas, de primeiro, era pisado com tronco de pau\u201d, narrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ci\u00eancia do transformar o barro em cer\u00e2mica ela j\u00e1 transmitiu para muita gente. Continua ensinando isso at\u00e9 hoje. \u201cO povo estranho que chega e me pede para eu ensinar, eu ensino. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, n\u00e3o. S\u00f3 vendo trabalhar para saber que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Teve um senhor daqui [de S\u00e3o Paulo] que, na quinta-feira passada, esteve l\u00e1 na minha casa [na Bahia]. A\u00ed eu estava trabalhando e ele ficou doido: \u2018Dona Cadu, a senhora me ensina?\u2019. E eu respondi que sim. Ele disse que ia passar uma semana na minha casa para aprender a fazer\u201d, ela gargalha.<\/p>\n\n\n\n<p>Detentora de saberes e fazeres ancestrais, Dona Cadu recebeu dois t\u00edtulos de Doutora Honoris Causa outorgados pela Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia (UFRB) e pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o garantiu seu sustento, o trabalho com as lou\u00e7as ao menos a fez viajar por v\u00e1rios cantos do Brasil. \u201cJ\u00e1 viajei. J\u00e1 fui at\u00e9 em Curitiba. O governador de l\u00e1 me mandou buscar l\u00e1 na minha casa para eu fazer uma exposi\u00e7\u00e3o para ele ver. Eu fui e ele gostou tanto que eu fui para passar tr\u00eas dias e eu passei oito dias\u201d, conta ela, gargalhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Cadu tamb\u00e9m viaja pelo Brasil para mostrar n\u00e3o s\u00f3 suas lou\u00e7as, mas o seu samba. \u201cEu tenho um grupo de samba, que eu n\u00e3o sou boba. Eu era nova e gostava dessas folias. At\u00e9 que, enfim, que a casa do samba, em Santo Amaro, me cadastrou no samba. Tenho meus instrumentos dentro de casa. Mas agora nunca mais sambei por causa da perna, que eu tenho medo. J\u00e1 fui at\u00e9 Curitiba, no Paran\u00e1, com meu sambinha. Vamos n\u00f3s duas sambar. Quem sabe, minha filha?\u201d, ela &nbsp;convida a rep\u00f3rter.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 cantando e sob o batuque das palmas, que ela encerra o bate-papo com a reportagem. \u201cChegou dona Cadu, do queimador de lou\u00e7a. Quando o vento bate, balan\u00e7a a sua roupa. Balan\u00e7a sua roupa, balan\u00e7a sua roupa. Chegou dona Cadu, do queimador de lou\u00e7a\u2019. E eu fico toda fofinha\u201d, acrescentou ela.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">D\u00e9<\/h2>\n\n\n\n<p>D\u00e9 Kariri Xoc\u00f3, 66 anos completados nesta semana, vive na Aldeia Kariri Xoc\u00f3, em Porto Real do Col\u00e9gio, em Alagoas. Assim como as companheiras que conheceu em S\u00e3o Paulo, ela come\u00e7ou a trabalhar a cer\u00e2mica com apenas sete anos. Os primeiros potes que fez logo que come\u00e7ou a amassar o barro foram \u201cum pote e uma panela\u201d. \u201cComecei a fazer pequeno. Depois j\u00e1 comecei a fazer grande, grande, grande. E agora fa\u00e7o de todo tamanho\u201d, revelou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/fOjIed_N1cZHMNQWKiof2ReYIdY=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_1470.jpg?itok=C2Bj6ZHB\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 25\/04\/2023 - A ceramista D\u00e9 Kariri Xoc\u00f3, da aldeia Kariri Xoc\u00f3 em Alagoas, participa do Encontro de Louceiras: modelando gerac\u00f5es, com media\u00e7\u00e3o de Joana C\u00f4rtes, no SESC 24 de Maio. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">D\u00e9 Kariri Xoc\u00f3, da aldeia Kariri Xoc\u00f3 em Alagoas,no Encontro de Louceiras. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/h6>\n\n\n\n<p>\u201cQuem me ensinou a fazer foi minha av\u00f3. Tanto que at\u00e9 hoje eu continuo a fazer. E ensinei. Tenho duas irm\u00e3s, que j\u00e1 sabem fazer h\u00e1 tempos. E agora eu estou ensinando minha filha e duas netas. Elas v\u00e3o para a escola e, quando chegam, elas dizem: \u2018vov\u00f3 D\u00e9, eu quero fazer pote\u2019. E eu digo: \u2018ent\u00e3o, venham para c\u00e1\u2019. E ela vem, senta mais eu, eu dou o bolinho de barro a ela e ela come\u00e7a a fazer uma coisinha. Eu estou esperando ela [a neta] e minha filha ficarem no meu lugar\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Os potes, conta D\u00e9, s\u00e3o parte de sua vida. Tarefa que ela desempenha do nascer ao anoitecer. \u201cEu me levanto da cama, escovo o lombo e vou correndo para o barro e para os potes. Quando \u00e9 a noite, estou alisando, raspando e movimentando o barro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa argila, diz D\u00e9, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 parte de sua vida ou seu sustento. Ela j\u00e1 est\u00e1 impregnada em seu corpo. \u201cQuanto mais eu estou apegada ao barro, mais eu estou sentindo coragem no meu corpo. Estou sentada fazendo a minha lou\u00e7a, chega a hora de eu almo\u00e7ar e minha nora me chama: \u2018D\u00e9, venha almo\u00e7ar\u2019 E eu respondo: \u2018vou j\u00e1, vou j\u00e1 mulher\u2019. Mas eu gosto tanto, que me passa a vontade de comer e de almo\u00e7ar. E a\u00ed, com o cachimbo na boca, fumando, isso \u00e9 minha resist\u00eancia. Eu sinto que ele me d\u00e1 resist\u00eancia\u201d, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Conseguir o material para fazer as pe\u00e7as n\u00e3o \u00e9 um problema em sua comunidade. \u201cNa minha aldeia n\u00e3o \u00e9 [dif\u00edcil de conseguir o material]. S\u00f3 que eles s\u00e3o muito profundos. Para a cer\u00e2mica do pote, para n\u00f3s tirarmos ele [barro], temos que cavar tr\u00eas camadas. Na quarta [camada] que ele d\u00e1 o positivo. Se eu tirar naquelas tr\u00eas camadas, quando eu vou fizer o pote, eu n\u00e3o levanto ele. Ele fica s\u00f3 querendo cair. Na quarta [camada] \u00e9 que eu tiro ele e a\u00ed eu trago ele positivo. Assim \u00e9 na panela tamb\u00e9m\u201d, acentuou.<\/p>\n\n\n\n<p>O dif\u00edcil \u00e9 arranjar comprador para as pe\u00e7as. \u201cNa nossa aldeia est\u00e1 faltando. N\u00e3o tem comprador para vir comprar direto\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto enfrenta esse problema de falta de comprador, D\u00e9 vai mantendo a tradi\u00e7\u00e3o, que aprendeu de menina. \u201cN\u00f3s n\u00e3o podemos parar. N\u00e3o podemos acabar essa tradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos parar porque essa \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o de n\u00f3s, \u00edndias\u201d, externou.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Marciana<\/h2>\n\n\n\n<p>Marciana Nonata Dias tem 82 anos e vive no Quilombo Santa Luzia do Maruanum, em Macap\u00e1 (AP). Sua hist\u00f3ria se assemelha a de muitas louceiras desse Brasil.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/-c3G2MIS4nqlp8K-BzDwWfC0mRY=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_1540.jpg?itok=Tpu9XtgG\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP), 25\/04\/2023 - A ceramista dona Marciana, do quilombo Maruanum em Macap\u00e1, participa do Encontro de Louceiras: modelando gerac\u00f5es, com media\u00e7\u00e3o de Joana C\u00f4rtes, no SESC 24 de Maio. Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Dona Marciana, do quilombo Maruanum em Macap\u00e1, participa do Encontro de Louceiras. Foto&nbsp;&#8211;&nbsp;<strong>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>\u201cComecei a trabalhar a argila com dez anos. Minhas tias todas faziam artesanato. Eu e minha prima peg\u00e1vamos o barro delas e faz\u00edamos [as pe\u00e7as] escondidas. Elas n\u00e3o gostavam [quando] a gente pegava o barro. Mas a gente tirava e fazia escondido. Depois de casada &#8211; casei com 22 anos &#8211; minha comadre me convidou para fazer artesanato com ela. Eu me dediquei para a casa dela e fazia artesanato com ela. E hoje estou passando isso de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>No quilombo onde vive, o trabalho com o barro re\u00fane toda a comunidade e funciona tamb\u00e9m como um ritual, uma devo\u00e7\u00e3o \u00e0 M\u00e3e do Barro, a guardi\u00e3 do barreiro de onde se extrai a argila. \u201cHoje s\u00e3o 20 louceiras na comunidade quilombola. Os homens v\u00e3o para dentro da mata para tirar os paus e cavar a argila. A gente vai para o lago. Chegando l\u00e1, a gente escolhe o lugar para tirar o barro, despede-se da M\u00e3e do Barro e a\u00ed vamos tirar o barro. Precisa tirar quatro camadas de terra para chegar no barro. Eu mando que eles cavem bem no meio do buraco. Eles escavam. E quando puxam o ferro, j\u00e1 est\u00e1 no barro. Eles limpam o barro, n\u00f3s forramos com o pl\u00e1stico e eles v\u00e3o jogando aquela argila para n\u00f3s, para cima. A gente pega aquela argila, vai amassando e colocando em uma saca de pl\u00e1stico. E a\u00ed cada uma de n\u00f3s faz uma pecinha para oferecer para a M\u00e3e do Barro\u201d, recordou ela. Desse ritual s\u00f3 n\u00e3o podem participar as mulheres gestantes, gr\u00e1vidas e menstruadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 que vem o sustento de sua comunidade. \u201cNossa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para a nossa comunidade por causa da renda. S\u00f3 a aposentadoria e a cultura da mandioca n\u00e3o est\u00e3o dando\u201d, confessa.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentemente de Dona Cadu, Marciana n\u00e3o tem dificuldade para encontrar o barro. \u201cO barro n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil para n\u00f3s porque l\u00e1 na nossa comunidade tem tr\u00eas quilombolas que t\u00eam terreno. O que \u00e9 mais dif\u00edcil para a gente \u00e9 o carip\u00e9 (\u00e1rvore cuja casca \u00e9 transformada em cinzas e depois utilizada para a confec\u00e7\u00e3o de cer\u00e2mica) e a jutaicica (resina do juta\u00ed, usada para dar lustro [brilho] a lou\u00e7as de barro)\u201d, contou ela.<\/p>\n\n\n\n<p>As pe\u00e7as produzidas no quilombo s\u00e3o vendidas em feiras e em casas de artesanato. Ela tamb\u00e9m vende pe\u00e7as em sua casa ou por encomenda. \u201cN\u00e3o tendo outro servi\u00e7o para fazer, eu fa\u00e7o tr\u00eas ou quatro pe\u00e7as por dia. Fa\u00e7o panela, x\u00edcara, caneca\u201d, detalhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua rotina come\u00e7a bem cedo, assim como a de dona D\u00e9 e dona Cadu. \u201cEu me levanto \u00e0s 7h, tomo meu banho, tomo meu caf\u00e9 e vou trabalhar. Tenho a minha casa de dormir e a minha casa para fazer as pe\u00e7as. S\u00f3 saio de l\u00e1 quando me chamam para almo\u00e7ar\u201d, disse ela. \u201cQuando a minha neta me chama para eu comer, eu falo \u2018deixa eu terminar, que depois eu vou almo\u00e7ar\u2019. E s\u00f3 quando eu termino \u00e9 que eu vou almo\u00e7ar. E logo quando termino de almo\u00e7ar, j\u00e1 estou fazendo minhas pe\u00e7as de novo\u201d, destacou.<\/p>\n\n\n\n<p>Para dona Marciana, o trabalho com as lou\u00e7as \u00e9 importante n\u00e3o s\u00f3 para o sustento de sua comunidade. \u201cEssa cultura vai passando de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o para a gente n\u00e3o deixar a nossa cultura morrer\u201d, sintetizou.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Coincidente<\/h2>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas mulheres. Tr\u00eas tradi\u00e7\u00f5es. Tr\u00eas formas de amassar o barro. \u201c\u00c9 muito diferente [o trabalho das tr\u00eas]. O meu \u00e9 feito o prato, rolado o barro para fazer o pavio para fazer as pe\u00e7as. Da minha tia v\u00e9ia [ela aponta para dona Cadu], ela faz assim [batendo a m\u00e3o]\u201d, exemplificou Marciana.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9, Cadu e Marciana podem ter suas diferen\u00e7as nessa arte. Mas elas se parecem n\u00e3o s\u00f3 na forma do trabalho como tamb\u00e9m em como se relacionam com ele. \u201cQuando estou longe do barro fico triste e adoe\u00e7o\u201d, finalizou Marciana.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Cadu tamb\u00e9m sofreu ao ter que ficar longe do barro por algum tempo devido a uma queda em que quebrou o f\u00eamur. \u201cEu levei dois anos e m\u00eas sem pegar em um bolo de barro. Como eu n\u00e3o fiquei, hein? Acho que fiquei mais doente porque eu estava sem trabalhar\u201d, disse ela.<\/p>\n\n\n\n<p>As lou\u00e7as feitas com barro s\u00e3o uma tradi\u00e7\u00e3o para diversas mulheres e diversas comunidades e territ\u00f3rios do Brasil. Do norte ao sul do pa\u00eds, louceiras produziram e produzem panelas, caldeir\u00f5es, pratos e outros utens\u00edlios. Esses objetos carregam em si as tradi\u00e7\u00f5es e os costumes que passaram de m\u00e3os para m\u00e3os. Objetos que podem ser diferentes na forma e nas hist\u00f3rias que carregam, mas que criam la\u00e7os em todo o Brasil. \u201cEstamos muito unidas pelo barro\u201d, finaliza Marciana.<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Kleber Sampaio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A saga de tr\u00eas mulheres contada no Sesc de S\u00e3o Paulo Por Elaine Patricia Cruz<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":58451,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-58450","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-outras-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58450","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58450"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58450\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58452,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58450\/revisions\/58452"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58451"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58450"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58450"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58450"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}