{"id":62367,"date":"2023-06-25T12:22:39","date_gmt":"2023-06-25T15:22:39","guid":{"rendered":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/?p=62367"},"modified":"2023-06-25T12:22:40","modified_gmt":"2023-06-25T15:22:40","slug":"nao-sou-de-la-e-nem-daqui-diz-coreano-que-vive-ha-57-anos-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/2023\/06\/25\/nao-sou-de-la-e-nem-daqui-diz-coreano-que-vive-ha-57-anos-no-brasil\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o sou de l\u00e1 e nem daqui\u201d, diz coreano que vive h\u00e1 57 anos no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">No Dia do Imigrante, reportagem aborda 60 anos da imigra\u00e7\u00e3o coreana<\/h3>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por Elaine Patricia Cruz \u2013 Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil &#8211; S\u00e3o Paulo<audio src=\"https:\/\/tts-app.ebc.com.br\/media\/tts\/205489.mp3\"><\/audio><\/h4>\n\n\n\n<p>\u201cOs imigrantes vivem em um terceiro mundo desse espa\u00e7o\/tempo. N\u00e3o s\u00e3o de l\u00e1 de onde v\u00eam, nem s\u00e3o de onde est\u00e3o\u201d. Foi com essa frase que o escritor e professor Jung Mo Sung (foto), da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, resumiu sua hist\u00f3ria de imigra\u00e7\u00e3o \u00e0&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.&nbsp;Segundo ele,<strong>&nbsp;<\/strong>essa&nbsp;realidade \u00e9 comum a todas as pessoas que saem de seus lugares de origem para viver em uma nova regi\u00e3o. Neste domingo (25), data em que se celebra o Dia do Imigrante, o professor diz que estar nessa condi\u00e7\u00e3o&nbsp;\u00e9 viver sempre como um estrangeiro.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1539881&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1539881&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Jung Mo Sung deixou a Coreia do Sul em 1966, quando tinha 8 anos de idade. Ele faz parte do segundo grupo de coreanos que chegou oficialmente ao Brasil. O primeiro, formado por 109 pessoas, segundo dados do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, chegou em fevereiro de 1963, h\u00e1 exatos 60 anos. J\u00e1 ele saiu de Busan, em um navio, e chegou em territ\u00f3rio brasileiro em 1966, junto com a&nbsp;m\u00e3e e seus tr\u00eas irm\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse navio havia&nbsp;dezenas de fam\u00edlias coreanas que tinham como destino o Brasil, a Argentina e o Paraguai. S\u00f3 aqui no pa\u00eds, segundo ele, desembarcaram 53 fam\u00edlias. \u201cEu tinha 8 anos quando eu cheguei aqui, em 1966. Sou do segundo grupo de coreanos que chegaram. O primeiro foi em 63. Tinha um grupo pequeno em 63 e da\u00ed, em 66, veio a segunda turma\u201d, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>A viagem durou longos 57 dias, em um navio que tamb\u00e9m era de carga. \u201cSa\u00edmos de Busan, segunda cidade mais importante da Coreia do Sul, e chegamos a&nbsp;Paranagu\u00e1. Antes, o navio havia feito a primeira descida no Rio de Janeiro e, depois, em Santos. O navio era misto, de carga e de passageiros\u201d, contou.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa longa jornada, ele se recorda principalmente das brincadeiras com outras crian\u00e7as e de um horizonte que nunca chegava.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cIsso me marcou muito. Teve uma passagem de 17 dias sem ver terra, que acho que foi das Filipinas at\u00e9 a \u00c1frica do Sul. Essa foi uma experi\u00eancia muito marcante para mim. A gente via baleias e tamb\u00e9m peixe-voador\u201d, lembrou.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Do Porto de Paranagu\u00e1, no Paran\u00e1,&nbsp;esses imigrantes coreanos que chegaram ao Brasil em 1966 seguiram para a cidade de Castro, onde foram alojados em um quartel do Ex\u00e9rcito. \u201cN\u00f3s ficamos na col\u00f4nia um ano s\u00f3, porque a col\u00f4nia era muito ruim, a terra era muito ruim. Enquanto a col\u00f4nia n\u00e3o ficou pronta, n\u00f3s ficamos um tempo no quartel de Castro e a\u00ed, depois, fui morar em Ponta Grossa para aprender portugu\u00eas, na escola. Fui morar com uma fam\u00edlia de brasileiros, de tradi\u00e7\u00e3o italiana. E a\u00ed ficamos um ano: meu pai conseguiu emprego na prefeitura de Apucarana, no norte do Paran\u00e1, e fomos para l\u00e1. E, depois de dois anos, n\u00f3s viemos para S\u00e3o Paulo. Em S\u00e3o Paulo, meu pai resolveu morar em bairros onde n\u00e3o tivessem coreanos para aprender rapidamente o portugu\u00eas. N\u00e3o tive muito contato com coreanos\u201d, contou.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a m\u00e9dica Hee J. Hong, chamada de Beth por aqui, chegou ao Brasil em 1969, com 3 anos de idade. Sua m\u00e3e era produtora e apresentadora de um programa infantil na KBS (um canal de televis\u00e3o da Coreia do Sul) e&nbsp;seu pai&nbsp;era t\u00e9cnico na mesma empresa. Eles deixaram Seul de avi\u00e3o, com a promessa de chegar ao Brasil e \u201ctrabalhar junto com uma tia que comercializava perucas na \u00e9poca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Possivelmente, minha fam\u00edlia tenha sido uma das primeiras a chegarem ao Brasil via a\u00e9rea&#8221;, contou a m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a ideia inicial de sua fam\u00edlia n\u00e3o funcionou e o pai decidiu abrir uma loja para reparo de equipamentos eletr\u00f4nicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jung Mo Sung e Hee Hong s\u00e3o dois exemplos dos mais de 50 mil coreanos que se estima viverem atualmente no Brasil. A maioria deles, como o professor e a m\u00e9dica, mora em S\u00e3o Paulo. Segundo dados do Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es Internacionais (OBMigra), o Brasil recebe, somente neste ano, 265 imigrantes coreanos. Desse total, 215 se estabeleceram em S\u00e3o Paulo. Em todo o ano passado, o Brasil recebeu 719 imigrantes coreanos, dos quais 555 escolheram o estado de S\u00e3o Paulo como local de destino.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Coreia<\/h2>\n\n\n\n<p>A Coreia que o professor Jung Mo Sung havia deixado para tr\u00e1s era um pa\u00eds na \u00e9poca bastante pobre, vivendo uma crise econ\u00f4mica e uma ditadura militar. \u201cCom a crise econ\u00f4mica, meu pai falou: \u2018vamos tentar outra vida\u2019. Ele tinha uma vida de classe m\u00e9dia na Coreia, mas havia uma tens\u00e3o pol\u00edtica muito grande l\u00e1 por causa da ditadura. Ent\u00e3o meu pai falou: \u2018vamos cair fora daqui&#8217;\u2019\u2019. E foi assim que o pai dele, que era engenheiro-arquiteto, veio antes ao Brasil, em um avi\u00e3o, para trabalhar na constru\u00e7\u00e3o de casas para uma col\u00f4nia coreana no Paran\u00e1. Ele, a m\u00e3e e os irm\u00e3os vieram depois, de navio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cA data comemorativa de 60 anos faz men\u00e7\u00e3o ao primeiro grupo de migrantes coreanos que chegaram de maneira oficial, ou seja, de uma migra\u00e7\u00e3o que foi incentivada pelo governo coreano e que passou por negocia\u00e7\u00f5es bilaterais entre Brasil e Coreia. Ent\u00e3o, no ano de 1963 chegaram 103 pessoas [na contagem do Museu da Imigra\u00e7\u00e3o seriam 103 pessoas, n\u00e3o 109, como diz o minist\u00e9rio] em fam\u00edlias e indiv\u00edduos. Eles partiram da Coreia do Sul no dia 18 de dezembro de 1962 e viajaram por 54 dias\u201d, explicou Thiago Haruo, gestor de Pesquisa do Museu da Imigra\u00e7\u00e3o, em entrevista \u00e0&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cA d\u00e9cada de 60 era o per\u00edodo do p\u00f3s-guerra para eles, em que estavam lidando com as consequ\u00eancias da guerra da Coreia, que devastou o pa\u00eds. Ent\u00e3o voc\u00ea tinha um cen\u00e1rio de um pa\u00eds empobrecido. E isso a gente pode identificar em v\u00e1rias falas de migrantes que gravaram entrevistas aqui com a gente [do Museu da Imigra\u00e7\u00e3o]. Ao mesmo tempo, o Brasil estava em seu contexto de reabertura da imigra\u00e7\u00e3o internacional no p\u00f3s-guerra\u201d, acrescentou Haruo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses migrantes coreanos&nbsp;eram em geral da classe m\u00e9dia, ressaltou Haruo. \u201cNormalmente n\u00e3o s\u00e3o nem as pessoas mais pobres que migram porque elas n\u00e3o t\u00eam recursos, nem as pessoas mais ricas. Ent\u00e3o s\u00e3o as pessoas de classe m\u00e9dia que, de alguma forma, conseguem os recursos. No cen\u00e1rio de guerra ali na d\u00e9cada de 60, muitas pessoas que tinham um ensino m\u00e9dio, uma escolaridade razoavelmente alta, migraram.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Os coreanos que chegaram ao Brasil em 1963, contou Haruo, desembarcaram no Porto de Santos e subiram, de \u00f4nibus, para a ent\u00e3o Hospedaria de Imigrantes, local onde hoje est\u00e1 localizado o Museu da Imigra\u00e7\u00e3o, na capital paulista, e que era um local de passagem para os estrangeiros que chegavam ao pa\u00eds. \u201cEles vieram para a Hospedaria para esperar porque eles iriam pra uma cidade chamada Miracatu, a 140 quil\u00f4metros da cidade de S\u00e3o Paulo, local onde supostamente eles iriam conseguir comprar uma terra para poder trabalhar. Essa espera virou um drama porque o terreno n\u00e3o era o que tinha sido prometido: as condi\u00e7\u00f5es do terreno n\u00e3o estavam agricult\u00e1veis e, al\u00e9m de tudo, tinha uma ocupa\u00e7\u00e3o de outras pessoas j\u00e1 trabalhando nesse terreno e esses imigrantes n\u00e3o sabiam. Houve uma fraude. Posteriormente eles decidiram por n\u00e3o prosseguir com a compra dessas terras\u201d, explicou Thiago Haruo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa \u201cmudan\u00e7a\u201d for\u00e7ada nos planos, os primeiros coreanos que chegaram de forma oficial ao Brasil decidiram ent\u00e3o se dedicar ao com\u00e9rcio. E foi assim que eles&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-06\/multicultural-bom-retiro-tem-projeto-de-se-tornar-bairro-de-coreanos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">se firmaram principalmente no Bom Retiro<\/a>, no centro de S\u00e3o Paulo, bairro onde h\u00e1 muitas confec\u00e7\u00f5es. \u201cTem uma quest\u00e3o interessante que vem justamente no momento de mudan\u00e7a da migra\u00e7\u00e3o [no Brasil]. A migra\u00e7\u00e3o deixa de ser aquilo que era antes, que era um fator econ\u00f4mico para desenvolver as planta\u00e7\u00f5es e para desenvolver a economia cafeeira, para virar um problema social. Ent\u00e3o esse \u00e9 um grupo que chega bem nessa transi\u00e7\u00e3o\u201d, contou o gestor do museu.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/6upSk8qS4o569P6Y0ncd5PXeIC4=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/feira_coreanos14-12.jpg?itok=3z6diIDL\" alt=\"S\u00e3o Paulo 24\/06\/2023 - Migra\u00e7\u00e3o coreana- Feira do Bom Retiro, que reune a comunidade coreana. Foto Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Bairro Bom Retiro, na regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo, \u00e9 refer\u00eancia para a comunidade coreana. Foto Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil<\/h6>\n\n\n\n<p>\u201cNas d\u00e9cadas de 60 e 70, a pr\u00f3pria migra\u00e7\u00e3o interna \u00e9 superintensa do campo pra cidade. O Brasil deixa de ser rural. Ent\u00e3o esses migrantes coreanos j\u00e1 v\u00eam nesse momento em que os postos de trabalho no campo j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o interessantes. Como eles j\u00e1 tinham algumas experi\u00eancias de trabalho em cidade e uma certa escolaridade, eles decidem n\u00e3o seguir no campo. O com\u00e9rcio, inicialmente, se tornou um foco de atua\u00e7\u00e3o. Trabalhos acad\u00eamicos mencionam muito sobre esse trabalho de sair pra vender, principalmente as mulheres, que saiam \u00e0 noite tocando nas portas, vendendo as roupas que elas conseguiam adquirir em outros lugares e vendiam, repassavam, mesmo com a dificuldade da l\u00edngua. Isso depois vai se desdobrar para a aproxima\u00e7\u00e3o desse grupo no campo da confec\u00e7\u00e3o de roupas, como eles v\u00eam a ficar muito conhecidos aqui na cidade de S\u00e3o Paulo\u201d, disse Haruo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o aconteceu somente com esse primeiro grupo de imigrantes coreanos. Esse foi o caso, por exemplo, do pai do professor Jung Mo Sung, que era engenheiro\/arquiteto na Coreia e, quando chegou ao Brasil, passou tamb\u00e9m a trabalhar com confec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cEm S\u00e3o Paulo [meus pais] trabalharam no com\u00e9rcio, em confec\u00e7\u00e3o. Come\u00e7aram fazendo costura, depois tentaram vender. Montaram uma fabriquinha e foi. Come\u00e7amos em uma casa, [no bairro] na Aclima\u00e7\u00e3o para fazer costura. Depois fomos para [os bairros] a Mooca e Br\u00e1s. O custo para pagar uma loja no Brasil \u00e9 muito alto, ent\u00e3o a gente tinha uma f\u00e1brica e a gente alugava uma sala\u201d, contou o professor.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ditaduras e traumas<\/h2>\n\n\n\n<p>Fugindo de um regime ditador por l\u00e1, os coreanos chegam ao Brasil no per\u00edodo em que o pa\u00eds tamb\u00e9m vive uma violenta ditadura. Associada a uma dificuldade de se comunicar, pela quest\u00e3o lingu\u00edstica, os coreanos passam a viver no Brasil sob intenso receio e preconceitos. \u201cO primeiro grupo social [de coreanos] migrou em 63 e pegou o per\u00edodo da ditadura [no Brasil]. E esse \u00e9 um per\u00edodo em que a politica migrat\u00f3ria passou a enxergar no migrante um inimigo, um inimigo nacional. Ent\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o migrante, n\u00e3o s\u00f3 coreana, que tamb\u00e9m tem essa quest\u00e3o da dificuldade da l\u00edngua, tem tamb\u00e9m uma dificuldade enorme de se regularizar. E isso tem consequ\u00eancias para os seus neg\u00f3cios. At\u00e9 hoje, as pessoas mais antigas da comunidade t\u00eam um pouco de receio de abrir suas portas e de explicar como s\u00e3o os seus neg\u00f3cios\u201d, contou Haruo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dificuldades provocadas pela l\u00edngua, aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para o acolhimento e o sentimento de n\u00e3o pertencimento ou de crise de identidade. Ser migrante \u00e9 tamb\u00e9m enfrentar dificuldades e aprender a lidar com traumas, provocados principalmente pelas diferen\u00e7as culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcho que para um imigrante, principalmente oriental, tudo \u00e9 mais complicado. E, apesar dos imigrantes japoneses j\u00e1 estarem no Brasil nessa \u00e9poca, os brasileiros ainda estranhavam a presen\u00e7a de pessoas com essas caracter\u00edsticas f\u00edsicas, com os olhos diferentes, puxados. Minha m\u00e3e conta hist\u00f3rias de pessoas que devolveram o tofu por estar com uma consist\u00eancia e sabor diferente do queijo\u201d, recordou&nbsp;a m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVamos tocando a vida, mas vamos descobrindo que [a migra\u00e7\u00e3o] marca muito. \u00c9 tudo diferente, a forma como se come, a forma como se senta \u00e0&nbsp;mesa. Para se comer no Brasil, voc\u00ea enche a boca, espera, termina de mastigar e depois coloca outro peda\u00e7o. Na cultura coreana, voc\u00ea coloca arroz, depois voc\u00ea come\u00e7a a colocar v\u00e1rias misturas e junta na boca e mastiga. O coreano, quando j\u00e1 tem a boca cheia de comida, vai colocando mais comida. Ent\u00e3o, at\u00e9 a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser educado \u00e9 uma confus\u00e3o. L\u00e1 eu era visto como uma pessoa educada, que come bem, direitinho. Mas aqui, no Brasil, estava totalmente errado. Ent\u00e3o se cria uma crise de identidade, vamos dizer assim\u201d, disse Jung Mo Sung.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 adulto, Jung Mo Sung retornou para a Coreia algumas vezes. Mas l\u00e1 tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu se sentir em casa. \u201cQuando eu voltei para a Coreia, pela primeira vez, para participar de um congresso, chegando l\u00e1 eu falei: \u2018aqui \u00e9 meu lugar\u2019. Tr\u00eas dias depois, eu queria voltar para casa porque a cultura l\u00e1 \u00e9 completamente diferente. Mas, quando volto para c\u00e1, aqui tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a minha casa porque sou estrangeiro aqui. Tive um AVC [acidente vascular cerebral]&nbsp;h\u00e1 cinco anos e perdi s\u00f3 a fala. Perdi o coreano, estou aprendendo de novo o ingl\u00eas, estou aprendendo de novo. Mas uma das coisas que percebi \u00e9 que eu voltei a ter h\u00e1bito coreano. Por exemplo, na universidade, a pessoa vinha para me cumprimentar e eu abaixava a cabe\u00e7a, o que \u00e9 o autom\u00e1tico na Coreia, e n\u00e3o dava a m\u00e3o. Eu dizia para as pessoas que estava recuperando a minha identidade de coreano\u201d, contou.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, a hist\u00f3ria do migrante est\u00e1 sempre associada \u00e0&nbsp;adapta\u00e7\u00e3o, a dificuldades e sofrimento. \u201cE h\u00e1 duas formas de se lidar com esse sofrimento: resolver, e isso leva tempo, j\u00e1 que \u00e9 [preciso] abrir de volta as feridas para poder limpar; ou ent\u00e3o voc\u00ea fecha e faz de conta que n\u00e3o tem. Mas como isso est\u00e1 l\u00e1, isso volta como uma forma de neurose, repress\u00e3o, etc.\u201d, destacou. \u201cPrecisamos entender o processo do mundo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o, \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o cultural e de conv\u00edvio com gentes estranhas\u201d, acrescentou.<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Juliana Andrade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Dia do Imigrante, reportagem aborda 60 anos da imigra\u00e7\u00e3o coreana Por Elaine Patricia Cruz<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-62367","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-outras-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62367"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62367\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62369,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62367\/revisions\/62369"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}