{"id":64692,"date":"2023-07-29T17:24:57","date_gmt":"2023-07-29T20:24:57","guid":{"rendered":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/?p=64692"},"modified":"2023-07-29T17:24:59","modified_gmt":"2023-07-29T20:24:59","slug":"se-racismo-e-cotidiano-antirracismo-tambem-precisa-ser-diz-pedagoga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/2023\/07\/29\/se-racismo-e-cotidiano-antirracismo-tambem-precisa-ser-diz-pedagoga\/","title":{"rendered":"Se racismo \u00e9 cotidiano, antirracismo tamb\u00e9m precisa ser, diz pedagoga"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Em 2021, metade das escolas tinham projetos pedag\u00f3gicos antirracistas<\/h3>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por Vin\u00edcius Lisboa &#8211; Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil &#8211; Rio de Janeiro<audio src=\"https:\/\/tts-app.ebc.com.br\/media\/tts\/207259.mp3\"><\/audio><\/h4>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria e cultura afrobrasileiras s\u00e3o parte obrigat\u00f3ria dos curr\u00edculos escolares brasileiros h\u00e1 quase 20 anos, quando foi publicada a Lei 10.639\/ 2003, mas o cumprimento dessa lei est\u00e1 longe de ser universalizado. Uma pesquisa da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Todos pela Educa\u00e7\u00e3o&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2023-07\/so-metade-das-escolas-publicas-tem-projetos-antirracistas-aponta-ong\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mostrou que somente metade das escolas tinham projetos pedag\u00f3gicos antirracistas<\/a>&nbsp;em 2021, e essa propor\u00e7\u00e3o estava em queda.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1545812&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1545812&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Para a pedagoga Cl\u00e9lia Rosa (foto) consultora e pesquisadora das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais na educa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um descompromisso institucional com o respeito a essa lei. Essa indiferen\u00e7a, somada ao mito da democracia racial, traz um preju\u00edzo \u00e9tico na forma\u00e7\u00e3o dos estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando a escola diz, nos seus curr\u00edculos, que forma cidad\u00e3os cr\u00edticos, cidad\u00e3os reflexivos, que possam atuar frente \u00e0s situa\u00e7\u00f5es, etc e etc, como \u00e9 que voc\u00ea forma um cidad\u00e3o cr\u00edtico que n\u00e3o compreende a pauta racial num pa\u00eds majoritariamente negro? Como \u00e9 que voc\u00ea forma um cidad\u00e3o cr\u00edtico que silencia diante de uma situa\u00e7\u00e3o de racismo? Como \u00e9 que se forma um cidad\u00e3o cr\u00edtico que n\u00e3o sabe a real hist\u00f3ria da funda\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento cultural, pol\u00edtico e social desse pa\u00eds? Ent\u00e3o, \u00e9 um preju\u00edzo enorme para todas as pessoas\u201d, critica a pedagoga, em entrevista \u00e0&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Palestrante da primeira Edi\u00e7\u00e3o da Eduko, que acontece nesta sexta-feira e s\u00e1bado em Belo Horizonte, Cl\u00e9lia Rosa defende que um projeto pedag\u00f3gico antirracista s\u00e9rio depende de forma\u00e7\u00e3o continuada dos docentes e n\u00e3o pode se restringir a datas comemorativas ou epis\u00f3dios espec\u00edficos. Nesse contexto, ela exalta o papel de fam\u00edlias negras, que tem impulsionado esse avan\u00e7o ao cobrar essa discuss\u00e3o nas escolas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Que passo al\u00e9m o projeto pedag\u00f3gico precisa dar para ser antirracista?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:<\/strong>&nbsp;O passo al\u00e9m \u00e9 trazer esse conte\u00fado em todos os dias letivos do ano. Eu costumo dizer que se o racismo \u00e9 cotidiano, o anti-racismo tamb\u00e9m precisa ser. O projeto pedag\u00f3gico n\u00e3o pode tratar a quest\u00e3o racial no seu curr\u00edculo de maneira ef\u00eamera, esperando uma data espec\u00edfica, um acontecimento espec\u00edfico. O passo al\u00e9m \u00e9 o que baliza a Lei 10.639, que \u00e9 a inclus\u00e3o desse conte\u00fado em todo curr\u00edculo da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, da educa\u00e7\u00e3o infantil ao final do ensino m\u00e9dio. Vou falar de uma maneira simples, embora n\u00e3o seja: o passo al\u00e9m \u00e9 fazer o que tem que ser feito. Embora, em uma sociedade racista, como a nossa, fazer o que tem que ser feito \u00e9 uma complexidade muito grande, porque a gente precisa enfrentar as in\u00fameras barreiras que o racismo coloca. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Este ano a Lei 10.639 completa 20 anos, mas a ONG Todos Pela Educa\u00e7\u00e3o divulgou uma pesquisa que mostra que os projetos antirracistas ainda est\u00e3o apenas em metade das escolas, e houve at\u00e9 uma queda nos \u00faltimos anos. Por que a gente est\u00e1 t\u00e3o longe de universalizar esse ensino previsto em lei?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:<\/strong>&nbsp;Est\u00e1 longe porque a gente precisa ainda, na minha perspectiva, vencer o mito da democracia racial, que imperou e, de certa forma, impera fortemente nas institui\u00e7\u00f5es e na escola tamb\u00e9m. Eu acho que existe ainda uma dificuldade tamb\u00e9m de se compreender o que \u00e9 o racismo e, na medida em que n\u00e3o se compreende o que \u00e9 de fato essa opress\u00e3o, fica muito mais dif\u00edcil combater. No \u00e2mbito dos 20 anos da lei, o que a gente vai observando \u00e9, de certo modo, um descompromisso das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas. A dificuldade s\u00e3o essas escolas que ainda n\u00e3o entenderam o seu papel e a import\u00e2ncia dessa base legal. Isso somado \u00e0 ideia do mito da democracia racial e somado ainda a uma ideia de que a quest\u00e3o enfrentamento ao racismo no Brasil \u00e9 um problema das pessoas negras. Infelizmente, essa ideia ainda paira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Para voc\u00ea que acompanha a implementa\u00e7\u00e3o da lei nesses 20 anos, como voc\u00ea avalia que os obst\u00e1culos a ela mudaram? Eles s\u00e3o os mesmos de 2003? H\u00e1 obst\u00e1culos novos?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:&nbsp;<\/strong>Uma coisa que mudou substancialmente foi a produ\u00e7\u00e3o de material, de referencial te\u00f3rico de qualidade para balizar todas as pr\u00e1ticas. A gente est\u00e1 falando de 20 anos da Lei 10.639 ao mesmo tempo em que estamos falando de 20 anos de a\u00e7\u00f5es afirmativas no Brasil, o que acarretou o aumento da entrada de estudantes negros e negras nas universidades e nas pesquisas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, mestrado e doutorado. A produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a partir de pesquisadores negros e negras, aumentou, do mesmo modo que aumentou significativamente a produ\u00e7\u00e3o de literatura infantil e infanto-juvenil. N\u00e3o h\u00e1 mais motivo de a gente continuar lendo para as crian\u00e7as as mesmas hist\u00f3rias e apresentando os mesmos autores. A barreira que existia antes, em que se dizia que n\u00e3o havia material dispon\u00edvel, que n\u00e3o havia refer\u00eancia dispon\u00edvel, n\u00e3o existe mais. E, felizmente, a produ\u00e7\u00e3o s\u00f3 tende a aumentar. Nesse sentido entendo que uma barreira importante que precisa ser derrubada \u00e9 o comprometimento das institui\u00e7\u00f5es, o que est\u00e1 ligado a uma ampla e efetiva forma\u00e7\u00e3o continuada dos seus docentes. Sem forma\u00e7\u00e3o, fica muito dif\u00edcil implementar e fazer isso ir para a sala de aula de maneira s\u00e9ria e potente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Sem essa forma\u00e7\u00e3o continuada, o que acontece?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:&nbsp;<\/strong>Ao longo desses 20 anos, o que a gente, infelizmente, tamb\u00e9m tem not\u00edcia \u00e9 de pr\u00e1ticas muitas vezes equivocadas, de pr\u00e1ticas racistas ainda que vestidas de uma boa inten\u00e7\u00e3o, que est\u00e3o na contram\u00e3o do que \u00e9 pot\u00eancia, refor\u00e7ando estere\u00f3tipos e estigmas. Ent\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o continuada do corpo docente, a forma\u00e7\u00e3o continuada em servi\u00e7o, ela \u00e9 uma estrat\u00e9gia extremamente importante para implementa\u00e7\u00e3o efetiva da lei. Sem a forma\u00e7\u00e3o, fica muito dif\u00edcil fazer um trabalho s\u00e9rio e coerente. Sem a forma\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o racial vira uma coisa ef\u00eamera, vira uma coisa de data comemorativa, e n\u00e3o \u00e9 disso que a gente t\u00e1 falando. A gente est\u00e1 falando de um ano letivo com mais de 200 dias.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Como pedagoga e consultora, quais erros mais frequentes voc\u00ea v\u00ea nessa tentativa de trazer o antirracismo para o projeto pedag\u00f3gico?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:<\/strong>&nbsp;Um erro frequente \u00e9 n\u00e3o entender que se trata de uma quest\u00e3o do Brasil, ou seja, de todos n\u00f3s. Nesse sentido, n\u00e3o tem a ver se voc\u00ea tem ou n\u00e3o um aluno negro na sua sala. Sobretudo quando a gente est\u00e1 falando das escolas privadas. Se a gente ainda tem um n\u00famero expressivo de escolas p\u00fablicas que n\u00e3o cumprem a lei, o n\u00famero de escolas privadas \u00e9 muito maior. O n\u00famero de estudantes negros nas escolas privadas, estatisticamente falando, \u00e9 menor do que na rede p\u00fablica, mas isso n\u00e3o deve ser de forma alguma um motivo para n\u00e3o trabalhar esse assunto. Um erro frequente \u00e9 entender que esse \u00e9 um assunto da popula\u00e7\u00e3o negra, que preciso ter um aluno negro, como se esse conte\u00fado fosse endere\u00e7ado a esse aluno. Outro erro \u00e9 n\u00e3o ampliar o repert\u00f3rio de refer\u00eancias e narrativas negras e continuar utilizando as mesmas narrativas euroc\u00eantricas, brancoc\u00eantricas e n\u00e3o colocando pesquisadores e narrativas negras como protagonistas do trabalho pedag\u00f3gico. Um apego a refer\u00eancias eurocentradas. Essas refer\u00eancias foram importantes nos 1980, 1990, mas quando a gente olha para o futuro, para a educa\u00e7\u00e3o do presente e pensa no futuro, a gente precisa ter coragem de abandonar alguns referenciais e abra\u00e7ar outros que condizem com o projeto de pa\u00eds e de sociedade que a gente quer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:&nbsp;<\/strong>E esse \u00e9 um assunto para os professores de todas as disciplinas, inclusive de exatas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:<\/strong>&nbsp;Sem d\u00favida. O texto da lei \u00e9 muito enf\u00e1tico e diz que esse conte\u00fado precisa ser trabalhado em todo o curr\u00edculo escolar. E a\u00ed, tem um destaque para as \u00e1reas de Hist\u00f3ria, Artes e Literatura. S\u00f3 que a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 como se tivesse focado nelas e engolido o que vem antes, que \u00e9 todo o curr\u00edculo escolar. Quando a gente vai para a \u00e1rea das ci\u00eancias biol\u00f3gicas e exatas, para que esses docentes consigam trazer esse repert\u00f3rio, eles v\u00e3o precisar voltar para as suas bases de estudo, para as refer\u00eancias que eles t\u00eam. Como \u00e9 que a gente faz uma educa\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria sem usar refer\u00eancias emancipat\u00f3rias? Esse professor vai precisar dar alguns passos em outras dire\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 dar passos atr\u00e1s. \u00c9 dar passos para se aproximar de outras produ\u00e7\u00f5es e referenciais te\u00f3ricos. \u00c9 entender que a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento n\u00e3o \u00e9 exclusividade da Europa. A produ\u00e7\u00e3o de saberes existe em outras partes do mundo, e no caso conte\u00fado africano e afrobrasileiro, essas \u00e1reas de conhecimento precisam se voltar para continente africano e reconhecer a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos pesquisadores africanos e dos pesquisadores negros em di\u00e1spora. \u00c9 tirar a Europa da posi\u00e7\u00e3o de centro \u00fanico do saber. Outros cantos do planeta produziram saberes inclusive anteriores. \u00c9 um exerc\u00edcio de coragem e de mudan\u00e7a de rota.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:&nbsp;<\/strong>E a forma\u00e7\u00e3o de novos professores mudou para atender a essa nova realidade?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:<\/strong>&nbsp;O curso de pedagogia tamb\u00e9m prev\u00ea que haja disciplinas na gradua\u00e7\u00e3o que abordem a Lei 10.639 e que falem sobre educa\u00e7\u00e3o e diversidade. Ent\u00e3o, essa nova gera\u00e7\u00e3o de professores certamente est\u00e1 tendo acesso a conte\u00fados que eu, por exemplo, que me formei como pedagoga no final dos anos 1990, n\u00e3o tive. Eu fui formada, a minha base de forma\u00e7\u00e3o nas quest\u00f5es raciais, foi primeiro no movimento negro, de mulheres negras, na luta dos movimentos sociais. E, depois, de forma acad\u00eamica, j\u00e1 na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Quando eu me formei, esse era um assunto que sequer era tratado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Voltando o olhar para os alunos, negros e brancos, qual \u00e9 o preju\u00edzo que eles t\u00eam por estarem em escolas que desrespeitam essa lei?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:<\/strong>&nbsp;Eu vejo como um preju\u00edzo \u00e9tico e na forma\u00e7\u00e3o de cidadania dessas crian\u00e7as e jovens, que se d\u00e1 tamb\u00e9m na escola. A escola \u00e9 um espa\u00e7o importante para a nossa forma\u00e7\u00e3o. Com a aus\u00eancia desse conte\u00fado, essas crian\u00e7as e jovens n\u00e3o conseguem, ao longo da sua trajet\u00f3ria escolar, se conectar com a real hist\u00f3ria desse pa\u00eds. N\u00e3o conseguem entender o porqu\u00ea da aus\u00eancia de pessoas negras nos espa\u00e7os de poder econ\u00f4mico, de poder pol\u00edtico e de poder cient\u00edfico, e normalizam essa aus\u00eancia. Quando a escola diz, nos seus curr\u00edculos, que forma cidad\u00e3os cr\u00edticos, cidad\u00e3os reflexivos, que possam atuar frente \u00e0s situa\u00e7\u00f5es etc e etc, como \u00e9 que voc\u00ea forma um cidad\u00e3o cr\u00edtico que n\u00e3o compreende a pauta racial num pa\u00eds majoritariamente negro? Como \u00e9 que voc\u00ea forma um cidad\u00e3o cr\u00edtico que silencia diante de uma situa\u00e7\u00e3o de racismo? Como \u00e9 que se forma um cidad\u00e3o cr\u00edtico que n\u00e3o sabe a real hist\u00f3ria da funda\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento cultural, pol\u00edtico e social desse pa\u00eds? Ent\u00e3o, \u00e9 um preju\u00edzo enorme e \u00e9 para todas as pessoas. A professora Nilma Lino Gomes diz que n\u00e3o trabalhar na perspectiva antiracista \u00e9 tamb\u00e9m negar o direito cognitivo dessas crian\u00e7as e jovens, enquanto cidad\u00e3o, sujeito pol\u00edtico e profissional. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que a aus\u00eancia desse conte\u00fado \u00e9 prejudicial para todas as crian\u00e7as e todos os jovens, independentemente do seu pertencimento racial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;O que esse conte\u00fado promove de resultado positivo para os estudantes negros e ind\u00edgenas, especificamente?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:&nbsp;<\/strong>Sobretudo, esse jovem e essa crian\u00e7a negra e ind\u00edgena veem os seus iguais em situa\u00e7\u00f5es de protagonismo. Porque a escola que nos formou, a escola que formou a crian\u00e7a que eu era no finalzinho dos anos 1970, nos anos 1980, colocou sempre a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e0 margem, nas bordas do desenvolvimento do Brasil. E, muito mais tarde, eu fui aprender que, embora a popula\u00e7\u00e3o negra estivesse vivendo \u00e0 margem, ela foi o centro da constru\u00e7\u00e3o do Brasil. O protagonismo da constru\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds \u00e9 e foi feito por m\u00e3os negras. N\u00e3o se trata de uma contribui\u00e7\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o do Brasil, ela formou o Brasil. Do mesmo modo que a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. A funda\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e9 da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Sem as m\u00e3os negras e ind\u00edgenas, sem esses saberes, o Brasil n\u00e3o teria se constitu\u00eddo. \u00c9 l\u00f3gico que h\u00e1 tamb\u00e9m os saberes europeus, mas a marca da viol\u00eancia foi e \u00e9 muito grande, e deixa a popula\u00e7\u00e3o negra e ind\u00edgena \u00e0 margem. Quando a gente traz para as crian\u00e7as que n\u00e3o fomos a margem, mas o centro da constru\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds, atrav\u00e9s de nossos saberes e tecnologias ancestrais, \u00e9 um mecanismo potente para a constru\u00e7\u00e3o da autoestima e para um deslocamento que nos coloca como produtores e detentores de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Os avan\u00e7os que a lei j\u00e1 proporcionou s\u00e3o percept\u00edveis nas crian\u00e7as e adolescentes que est\u00e3o saindo dessas escolas em que a educa\u00e7\u00e3o antirracista foi \u00e0 frente?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:<\/strong>&nbsp;N\u00e3o teria como dimensionar isso olhando para o Brasil como um todo. Uma pesquisa recente do Instituto Alana, realizada junto com o Geled\u00e9s &#8211; Instituto da Mulher Negra que percorreu os 5 mil munic\u00edpios do Brasil, revela algo que \u00e9 muito assustador: 70% das redes municipais de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o cumprem a lei e n\u00e3o t\u00eam pr\u00e1ticas antirracistas. \u00c9 um n\u00famero muito expressivo. Mas acredito que, nas escolas que tiveram compromisso da gest\u00e3o e de toda a equipe, certamente seus estudantes saem com outra vis\u00e3o de mundo e de sociedade. Mas n\u00e3o posso deixar de ressaltar que, para al\u00e9m do trabalho dessas escolas, h\u00e1 tamb\u00e9m o trabalho de muitas fam\u00edlias negras que v\u00eam investindo e falando sobre a quest\u00e3o racial em suas casas. Eu sou de uma gera\u00e7\u00e3o que, na minha casa, o racismo n\u00e3o era um assunto que se falava em casa, \u00e0 mesa. Sofr\u00edamos o racismo e todo o impacto do racismo estrutural e da viol\u00eancia do Estado, mas n\u00e3o era um assunto trazido verbalmente. Isso mudou. As fam\u00edlias t\u00eam falado sobre isso. Eu sou m\u00e3e e falo sobre isso com as minhas filhas. As fam\u00edlias romperam com o sil\u00eancio. Essa juventude muito mais engajada e conhecendo seus valores, valorizando sua ancestralidade, sua hist\u00f3ria, \u00e9 trabalho de algumas escolas que fizeram uma educa\u00e7\u00e3o antirracista mas \u00e9 tamb\u00e9m uma nova forma de educar dentro de casa. Muitas escolas iniciam seus projetos antirracistas, d\u00e3o o pontap\u00e9 inicial nessa perspectiva porque as fam\u00edlias foram l\u00e1 bater na porta. A partir dessa fam\u00edlia que n\u00e3o silencia, muitas escolas foram impulsionadas e come\u00e7aram a se aproximar de todo um trabalho que j\u00e1 existe. E as crian\u00e7as negras que j\u00e1 t\u00eam outra mentalidade e falam sobre isso recebem um refor\u00e7o da fam\u00edlia e da escola, est\u00e3o sendo duplamente amparadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>&nbsp;Seguindo nesse ponto da comunidade escolar por um sentido inverso, a gente v\u00ea hoje alunos e pais filmando professores, trazendo pautas extremistas e fundamentalismos religiosos para a escola. Qual \u00e9 o peso e a dificuldade que isso est\u00e1 tendo contra o avan\u00e7o da educa\u00e7\u00e3o antirracista?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cl\u00e9lia Rosa:<\/strong>&nbsp;O fundamentalismo \u00e9 um complicador em todos os sentidos. Quando os pais v\u00e3o para a escola criticar um projeto, dizer que s\u00e3o contra, que querem que seus filhos n\u00e3o assistam a determinado conte\u00fado, \u00e9 fundamental que n\u00f3s entendamos o funcionamento da lei e tenhamos isso como nosso aliado. Somos n\u00f3s, educadores, que sabemos o que precisa ser ensinado. A gente precisa mostrar para essas fam\u00edlias que quem entende do riscado da escola dos muros da escola para dentro \u00e9 o educador, \u00e9 a gest\u00e3o da escola. N\u00e3o \u00e9 uma fam\u00edlia fundamentalista que vai dizer como eu vou trabalhar, primeiro porque eu sou formada e tenho diploma para isso, e segundo porque tenho uma legisla\u00e7\u00e3o que baliza a minha pr\u00e1tica. Existe uma fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e uma base legal para fazer esse trabalho. Cada vez mais n\u00f3s, educadores e comunidade escolar, temos que nos agarrar \u00e0 base legal. Pra resumir, costumo dizer que uma fam\u00edlia pode chegar na escola com seu senso comum, com seu achismo, dizendo que viu algo na televis\u00e3o, no grupo de Whattsapp, no Tik Tok. Mas ela n\u00e3o pode sair da escola com essas informa\u00e7\u00f5es. Ao chegar com essas informa\u00e7\u00f5es equivocadas, eu tenho que dar as informa\u00e7\u00f5es que valem, tenho que mostrar como funciona.<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Val\u00e9ria Aguiar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2021, metade das escolas tinham projetos pedag\u00f3gicos antirracistas Por Vin\u00edcius Lisboa &#8211; Rep\u00f3rter da<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":64693,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-64692","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-outras-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64692","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64692"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64692\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":64694,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64692\/revisions\/64694"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64693"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64692"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64692"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64692"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}