{"id":69148,"date":"2023-09-30T17:00:00","date_gmt":"2023-09-30T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/?p=69148"},"modified":"2023-09-29T21:06:25","modified_gmt":"2023-09-30T00:06:25","slug":"produtos-feitos-com-falso-plastico-biodegradavel-sao-vendidos-em-supermercados-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/2023\/09\/30\/produtos-feitos-com-falso-plastico-biodegradavel-sao-vendidos-em-supermercados-do-pais\/","title":{"rendered":"Produtos feitos com falso pl\u00e1stico biodegrad\u00e1vel s\u00e3o vendidos em supermercados do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"\n<p>Um estudo famoso publicado na revista Science mostrou que, at\u00e9 2015, cerca de 6,3 bilh\u00f5es de toneladas de pol\u00edmeros pl\u00e1sticos haviam sido produzidos e descartados ao longo da hist\u00f3ria humana. Destes, apenas 9% foram reciclados e 12%, incinerados. Os 79% restantes foram acumulados em aterros sanit\u00e1rios ou em ambientes continentais, dos quais aproximadamente 10% alcan\u00e7aram ambientes marinhos ou costeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados s\u00e3o de oito anos atr\u00e1s. E, embora alguns pa\u00edses tenham anunciado pol\u00edticas de \u201cpl\u00e1stico zero\u201d, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 certamente muito pior agora, por efeito cumulativo, uma vez que a produ\u00e7\u00e3o anual \u00e9 de 400 milh\u00f5es de toneladas. Em consequ\u00eancia, a contamina\u00e7\u00e3o por micropl\u00e1sticos tornou-se, depois da crise clim\u00e1tica, um dos maiores problemas ambientais do planeta. H\u00e1 micropl\u00e1sticos em todos os lugares: na terra, no mar e no ar. Como afirma o pesquisador \u00cdtalo Castro, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (IMar-Unifesp), \u201ca gente s\u00f3 n\u00e3o encontra micropl\u00e1sticos onde n\u00e3o procura\u201d. No corpo humano, eles j\u00e1 foram detectados no sangue, nos pulm\u00f5es, no cora\u00e7\u00e3o e na placenta.<\/p>\n\n\n\n<p>O agravante \u00e9 que aquilo que deveria ser uma solu\u00e7\u00e3o muitas vezes constitui um problema a mais. \u00c9 o que mostra uma investiga\u00e7\u00e3o coordenada por Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadores do Instituto do Mar visitaram 40 supermercados do Brasil e analisaram os produtos supostamente feitos com pl\u00e1sticos biodegrad\u00e1veis expostos \u00e0 venda. Os estabelecimentos foram escolhidos entre grandes redes que atuam nos Estados de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. E um total de 49 produtos diferentes, incluindo sacolas, copos, pratos, talheres e outros utens\u00edlios de cozinha, foram encontrados. Esses itens eram, em m\u00e9dia, 125% mais caros do que similares feitos de pl\u00e1sticos convencionais. A grande surpresa foi verificar que nenhum deles, mesmo os de grandes marcas, atendia aos requisitos m\u00ednimos para serem considerados de fato biodegrad\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo teve como primeira autora a doutoranda Beatriz Barbosa Moreno, bolsista da FAPESP sob a orienta\u00e7\u00e3o de Castro. Os resultados foram publicados no peri\u00f3dico Sustainable Production and Consumption.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPara ser considerado biodegrad\u00e1vel, um produto, quando descartado no meio ambiente, deve-se converter em \u00e1gua [H2O], g\u00e1s carb\u00f4nico [CO2], metano [CH4] e biomassa em um intervalo de tempo relativamente curto. N\u00e3o h\u00e1 consenso sobre que intervalo de tempo \u00e9 esse. Mas a ideia geral \u00e9 que varie de algumas semanas a um ano. Nenhum dos 49 itens que investigamos atendeu a esse requisito\u201d, diz Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o pesquisador, mais de 90% deles eram feitos com uma classe de materiais que se convencionou chamar de oxodegrad\u00e1veis. Apesar do nome, esses materiais n\u00e3o sofrem degrada\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es ambientais normais. S\u00e3o pol\u00edmeros de origem f\u00f3ssil aditivados com sais met\u00e1licos. Os sais aceleram o processo de oxida\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o. Mas os fragmentos podem permanecer por d\u00e9cadas na natureza. Al\u00e9m de n\u00e3o contribuir para a degrada\u00e7\u00e3o, a fragmenta\u00e7\u00e3o acelera a forma\u00e7\u00e3o de micropl\u00e1sticos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs pl\u00e1sticos oxodegrad\u00e1veis j\u00e1 foram proibidos em v\u00e1rios locais do mundo, incluindo a Uni\u00e3o Europeia. Na maioria dos casos, as proibi\u00e7\u00f5es ocorreram pela falta de evid\u00eancias de biodegradabilidade em ambientes reais, associada ao risco de forma\u00e7\u00e3o de micropl\u00e1sticos\u201d, informa Castro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Regula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como os pl\u00e1sticos oxodegrad\u00e1veis ainda n\u00e3o s\u00e3o proibidos no Brasil, sua venda n\u00e3o constitui crime. No entanto, al\u00e9m da denomina\u00e7\u00e3o capciosa, os consumidores s\u00e3o enganados pela alega\u00e7\u00e3o de muitas empresas de que seus produtos foram aprovados por normas t\u00e9cnicas e testes de biodegradabilidade, como ASTM D6954-4 ou SPCR 141. \u201cEssas normas fornecem apenas um guia para comparar taxas de degrada\u00e7\u00e3o e altera\u00e7\u00f5es de propriedades f\u00edsicas sob condi\u00e7\u00f5es controladas de laborat\u00f3rio, n\u00e3o avaliando as etapas finais da degrada\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, nas p\u00e1ginas web das pr\u00f3prias normas, h\u00e1 advert\u00eancias para que n\u00e3o sejam usadas em certifica\u00e7\u00f5es de biodegradabilidade de produtos pl\u00e1sticos comerciais\u201d, argumenta Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador ressalta que a comercializa\u00e7\u00e3o de um produto que n\u00e3o entrega o prometido, do ponto de vista ambiental, pode ser enquadrada como pr\u00e1tica de greenwashing, termo em ingl\u00eas que indica falsas alega\u00e7\u00f5es ambientais em produtos comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando um produto reconhecidamente prejudicial para o meio ambiente passa a ser maci\u00e7amente usado, \u00e9 necess\u00e1rio que a\u00e7\u00f5es de Estado sejam implementadas. Nesse sentido, tramita no Senado&nbsp;projeto de lei 2524\/2022 que, entre outras provid\u00eancias, veda o uso de aditivos oxidegradantes ou pr\u00f3-oxidantes em resinas termopl\u00e1sticas, assim como a fabrica\u00e7\u00e3o, a importa\u00e7\u00e3o e a comercializa\u00e7\u00e3o de quaisquer embalagens e produtos feitos de pl\u00e1sticos oxidegrad\u00e1veis\u201d, informa Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>Caso aprovado no seu formato atual, diz o pesquisador, o PL 2524\/2022 poder\u00e1 contribuir para a transi\u00e7\u00e3o do Brasil rumo a uma economia circular do pl\u00e1stico. \u201cEssa transi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma necessidade urgente\u201d, enfatiza Castro. E prossegue: \u201cO Instituto do Mar est\u00e1 localizado em Santos, no litoral paulista. Em Santos, detectamos micropl\u00e1sticos acumulados em ostras [Crassostrea brasiliana] e mexilh\u00f5es [Perna perna]. Esses animais s\u00e3o filtradores da \u00e1gua do mar. Por isso, considerados o padr\u00e3o-ouro para avalia\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es do ambiente em que se encontram. Os valores que detectamos est\u00e3o entre os maiores do mundo quando comparados a outros 40 estudos semelhantes\u201d, conta (leia mais em: agencia.fapesp.br\/41673).<\/p>\n\n\n\n<p>Procurado pela reportagem, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima (MMA) afirmou em nota que apoia o PL 2524\/22, mas com algumas altera\u00e7\u00f5es. \u201cO minist\u00e9rio \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o de aditivos oxidegradantes\/pr\u00f3-oxidantes, baseando-se em estudos que comprovam a gera\u00e7\u00e3o de micropl\u00e1sticos na fragmenta\u00e7\u00e3o de pl\u00e1sticos com tais aditivos \u2013 o que causa dano ambiental, particularmente para ambientes mar\u00edtimos\u201d, sublinhou o texto.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria do Pl\u00e1stico (Abiplast) informou, tamb\u00e9m em nota, ser favor\u00e1vel \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o do aditivo oxidegrad\u00e1vel em produtos pl\u00e1sticos. Contudo, a entidade se coloca contr\u00e1ria ao PL 2524\/2022, que, em sua avalia\u00e7\u00e3o, \u201cconfunde economia circular com banimento de produtos pl\u00e1sticos, direcionando o objeto da lei apenas a um \u00fanico material\u201d. O texto diz ainda que \u201ca economia circular implica uma mudan\u00e7a sist\u00eamica, portanto, exige uma abordagem macro, envolvendo todos os setores da ind\u00fastria. Enquanto isso, outro PL, o 1874\/2022 [que institui a Pol\u00edtica Nacional de Economia Circular], traz disposi\u00e7\u00f5es importantes, como a gest\u00e3o estrat\u00e9gica dos recursos, a promo\u00e7\u00e3o de novos modelos de neg\u00f3cio, os investimentos em atividades de pesquisa e inova\u00e7\u00e3o e o apoio \u00e0 transi\u00e7\u00e3o para o uso de tecnologias de baixo carbono por meio da cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es atrativas para investimento p\u00fablico e privado, entre outros aspectos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Abiplast acredita no debate s\u00e9rio e preciso, com informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, para que se possa promover um di\u00e1logo propositivo sobre a correta utiliza\u00e7\u00e3o do pl\u00e1stico e todos os benef\u00edcios que o material trouxe e traz para a sociedade. O setor pl\u00e1stico tem sido protagonista em a\u00e7\u00f5es para promover a economia circular do material, investindo em tecnologia, sustentabilidade e inova\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou a entidade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Jos\u00e9 Tadeu Arantes &#8211; Ag\u00eancia Fapesp<\/em><br>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um estudo famoso publicado na revista Science mostrou que, at\u00e9 2015, cerca de 6,3 bilh\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":69149,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-69148","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-outras-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69148"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69148\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69150,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69148\/revisions\/69150"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69149"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}