{"id":77593,"date":"2024-02-11T12:13:03","date_gmt":"2024-02-11T15:13:03","guid":{"rendered":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/?p=77593"},"modified":"2024-02-11T12:21:35","modified_gmt":"2024-02-11T15:21:35","slug":"pioneira-na-fisica-professora-lembra-carreira-de-quase-70-anos-na-usp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/2024\/02\/11\/pioneira-na-fisica-professora-lembra-carreira-de-quase-70-anos-na-usp\/","title":{"rendered":"Pioneira na f\u00edsica, professora lembra carreira de quase 70 anos na USP"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Forma\u00e7\u00e3o de cientistas marca trajet\u00f3ria de Yvonne Mascarenhas<\/h3>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por Daniel Mello \u2013 Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil &#8211; S\u00e3o Paulo<audio src=\"https:\/\/tts-app.ebc.com.br\/media\/tts\/217012.mp3\"><\/audio><\/h4>\n\n\n\n<p>Quando era adolescente, Yvonne Mascarenhas gostava de escrever e pensava em se tornar jornalista. Por\u00e9m, quando chegou a \u00e9poca do vestibular, acabou optando pela qu\u00edmica. \u201cTive um excelente professor e, pensando bem, vi o quanto a qu\u00edmica \u00e9 \u00fatil para a sociedade\u201d, diz Yvonne, ao lembrar da decis\u00e3o que a levou a ser a primeira mulher a ocupar uma cadeira no Departamento de F\u00edsica da Escola de Engenharia de S\u00e3o Carlos da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), em 1956.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1580221&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1580221&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p>Quase 70 anos depois, aos 92 anos de idade, Yvonne v\u00ea na doc\u00eancia&nbsp;uma de suas maiores realiza\u00e7\u00f5es na carreira. \u201cEu sempre digo: &#8216;n\u00e3o foi nenhum trabalho especial que eu fiz, que eu considere assim t\u00e3o importante&#8217;. O mais importante foi o n\u00famero de pessoas que aprenderam comigo, aprenderam nos cursos que eu organizei.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/UpRQbjl3SXQAq_Y8AQXLl3Idaq8=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/mulheres_cientistas_04.jpg?itok=X1hPXqn5\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP) 09\/02\/2024.  A qu\u00edmica Yvonne Mascarenhas, primeira mulher a ocupar uma cadeira no Departamento de F\u00edsica e Engenharia de S. Carlos da USP em 1956 .  \nFoto: Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Yvonne Mascarenhas, primeira mulher a ocupar uma cadeira no Departamento de F\u00edsica e Engenharia de S. Carlos da USP em 1956.Foto:&nbsp;<strong>Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2001, aos 70 anos e com quase 50 anos como professora da USP, ela se aposentou compulsoriamente, mas n\u00e3o deixou a universidade. \u201cRecebi primeiro o t\u00edtulo de professora em\u00e9rita, depois surgiu uma posi\u00e7\u00e3o na USP, que se chama professor s\u00eanior, que tem at\u00e9 um contrato. N\u00e3o \u00e9 um contrato de trabalho, \u00e9 uma permiss\u00e3o de uso dos espa\u00e7os\u201d, explica. \u201cPosso ter uma sala, ter meu computador, ter o laborat\u00f3rio. S\u00f3 n\u00e3o posso dar aula, nem ter atividade administrativa\u201d, diz a pesquisadora, ao lembrar como continuou orientando alunos de mestrado e doutorado depois da aposentadoria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Pr\u00eamios<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/9Jpv7SB6msvBTy0cFdpH3q2nAEs=\/365x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/mulheres_cientistas_02.jpg?itok=IxRUWUDY\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP) 09\/02\/2024.  A qu\u00edmica Yvonne Mascarenhas, primeira mulher a ocupar uma cadeira no Departamento de F\u00edsica e Engenharia de S. Carlos da USP em 1956 .  \nFoto: Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Yvonne Mascarenhas. Foto:&nbsp;<strong>Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Yvonne, que estudou nos Estados Unidos e na Inglaterra, ganhou diversos pr\u00eamios especializando-se na cristalografia, ci\u00eancia que estuda a composi\u00e7\u00e3o dos materiais a partir da forma como as ondas os atravessam. \u201cComo eu trabalhei em uma \u00e1rea muito interdisciplinar, tive pr\u00eamios de sociedades de qu\u00edmica, de f\u00edsica\u201d, relata, sem destacar nenhuma honraria em especial.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, ela foi uma das 12 cientistas agraciadas com o pr\u00eamio Distinguished Women in Chemistry or Chemical Engineering Awards, da Uni\u00e3o Internacional de Qu\u00edmica Pura e Aplicada (Iupac).<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima ter\u00e7a-feira (6), foi a vez de receber o Pr\u00eamio Carolina Bori Ci\u00eancia &amp; Mulher da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC). \u201cEu posso destacar como sendo um que engloba praticamente todos os outros de uma maneira como se fosse agora uma conclus\u00e3o da minha vida\u201d, resumiu a professora,&nbsp;logo ap\u00f3s participar da cerim\u00f4nia de entrega dos trof\u00e9us no campus Maria Ant\u00f4nia da USP, no centro da capital paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora conta que tem um carinho especial pela SBPC, por causa do papel que a institui\u00e7\u00e3o teve durante a ditadura militar. \u201cNos maiores momentos da vida nacional, em que viv\u00edamos angustiados com os amigos sendo presos, torturados, durante a ditadura, a SBPC foi uma sociedade que teve comportamento \u00edmpar de defesa da democracia, de defesa dos direitos humanos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Neste Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ci\u00eancia, lembrado anualmente no&nbsp;dia 11 de fevereiro, a&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil&nbsp;<\/strong>traz uma entrevista exclusiva com a pesquisadora que lembra os momentos mais marcantes de sua vida e sua carreira na ci\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;&#8211; Como a senhora decidiu se tornar cientista?<br><strong>Yvonne Mascarenhas<\/strong>&nbsp;&#8211; Eu fui, quando era adolescente, muito apaixonada por literatura, jornalismo, tudo que \u00e9 de arte, tudo que \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o. O meu ideal era estudar no ensino superior na \u00e1rea de letras. Meu pai me estimulava muito, porque, como eu gostava muito de escrever, e ele tinha um amigo que tinha um jornal, de vez em quando, ele pegava uma das minhas reda\u00e7\u00f5es, como se chamava naquele tempo, levava l\u00e1 e publicava.<br>Mas quando eu cheguei no que antigamente chamava-se curso colegial, que era dividido em cl\u00e1ssico e cient\u00edfico, eu fui para o cl\u00e1ssico, mas tive professores muito bons em matem\u00e1tica, f\u00edsica e qu\u00edmica, mesmo dentro do curso cl\u00e1ssico. Ent\u00e3o, eu me interessei muito por qu\u00edmica. Tive um excelente professor e, pensando bem, eu vi que a qu\u00edmica \u00e9 t\u00e3o \u00fatil para a sociedade, tem tantas vertentes em que ela \u00e9 importante, tanto nas aplica\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas como nas aplica\u00e7\u00f5es industriais.<br>Eu me apaixonei pela qu\u00edmica, principalmente a \u00e1rea de qu\u00edmica org\u00e2nica. A\u00ed, resolvi fazer vestibular para qu\u00edmica. Consegui, passei, entrei na Faculdade de Filosofia, que antigamente era a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, porque o Rio de Janeiro era a capital. E se transformou essa universidade em UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro].<br>No meu tempo \u2013 era um tempo muito mais ameno, digamos assim \u2013, tudo acontecia, a faculdade de filosofia era ali perto da Cinel\u00e2ndia, do Rio, um lugar muito privilegiado. Tem o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, todos os cinemas, que era uma das coisas principais daquela \u00e9poca, teatros, tudo por ali. Eu tive uma oportunidade maravilhosa de conviver com cientistas, com matem\u00e1ticos, com bi\u00f3logos, tudo desde a Faculdade de Filosofia, e ao mesmo tempo frequentar esse ambiente cultural riqu\u00edssimo que era no Rio de Janeiro. Eu tive muita sorte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;&#8211; Qual foi o seu primeiro marco na carreira de cientista?<br><strong>Yvonne Mascarenhas<\/strong>&nbsp;&#8211; Decidir eu mesma, dentro da qu\u00edmica, o que achava interessante, foi quando fiz uma disciplina com um professor que tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, tinha se doutorado no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], chamava-se Elysi\u00e1rio T\u00e1vora [importante ge\u00f3logo]. Ele tinha se doutorado junto com um orientador que era um dos grandes cristal\u00f3grafos da \u00e9poca, em que a cristalografia estava se formando mesmo, de difra\u00e7\u00e3o de raio x. E ele nos deu um curso muito interessante.<br>Eu falei: \u201c\u00e9 isso que eu quero\u201d. Porque as propriedades de todos os materiais dependem da estrutura molecular e da estrutura do empacotamento das mol\u00e9culas dentro do cristal, dentro do material que vai ser usado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;&#8211; O que \u00e9 a cristalografia?<br><strong>Yvonne Mascarenhas<\/strong>&nbsp;&#8211; \u00c9 o estudo dos cristais. \u00c9 um estudo, porque pode n\u00e3o ser cristal, come\u00e7ou como cristal, mas hoje em dia at\u00e9 com materiais amorfos a gente tem certas aplica\u00e7\u00f5es da difra\u00e7\u00e3o e espalhamento de raios x. Ent\u00e3o fiquei nessa \u00e1rea. [estudo da estrutura dos materiais a partir da maneira como as ondas, como os raios-x, se espalham ao atravessar a mat\u00e9ria].<br>Claro que essa \u00e1rea evoluiu muito. Hoje em dia, tem difra\u00e7\u00e3o de n\u00eautrons, aperfei\u00e7oam-se muito as espectroscopias. A \u00e1rea de determina\u00e7\u00e3o de estruturas moleculares at\u00e9 hoje \u00e9 muito importante. Quando era mais f\u00e1cil, mol\u00e9cula pequena, depois passava para prote\u00edna, passava para mol\u00e9culas muito maiores. Hoje em dia, complexos de prote\u00edna. Est\u00e1 indo assim num desenvolvimento extraordin\u00e1rio e muito vivo at\u00e9 hoje. Se voc\u00ea pensar bem, o Brasil se envolveu em ter um laborat\u00f3rio nacional de luz&nbsp;<a href=\"https:\/\/lnls.cnpem.br\/sirius\/a-luz-sincrotron-e-seus-beneficios\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">s\u00edncrotron<\/a>, l\u00e1 em Campinas, \u00e9 do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico]. E aquilo se transformou no CNPEM [Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais], e agora n\u00f3s temos um dos maiores aceleradores para essa finalidade l\u00e1 no CNPEM.<br>\u00c9 uma \u00e1rea que est\u00e1 muito viva at\u00e9 hoje. Tem muito aluno que est\u00e1 interessado nisso, tanto [de] departamentos qu\u00edmicos como f\u00edsicos, muitas vezes bioqu\u00edmicos, [que] acabam entrando nessa \u00e1rea para entender a estrutura das mol\u00e9culas, para entender como que elas funcionam.<br><br><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;&#8211; A senhora falou da import\u00e2ncia que os professores tiveram na sua motiva\u00e7\u00e3o. Vendo-se hoje, com muitos anos como professora, a senhora tem esse orgulho, essa felicidade de sentir que motivou muita gente tamb\u00e9m?<br><strong>Yvonne Mascarenhas<\/strong>&nbsp;&#8211; Olha, esse \u00e9 o principal produto do resultado do meu trabalho. Eu sempre digo: &#8216;n\u00e3o foi nenhum trabalho especial que eu fiz que eu considero assim t\u00e3o importante&#8217;. O mais importante foi o n\u00famero de pessoas que aprenderam comigo, aprenderam nos cursos que eu organizei. N\u00e3o cursos na faculdade, na universidade. Cursos que podiam receber gente de qualquer lugar. Eu organizei muitos cursos fora de S\u00e3o Carlos, em Bras\u00edlia, em Belo Horizonte, em v\u00e1rios lugares.<br>Essas pessoas que se formaram e que aprenderam, e que depois at\u00e9 foram fazer doutoramento fora do Brasil, at\u00e9 porque, esses cursos, em que a gente mostrava o panorama da cristalografia mundial e que levaram \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma comunidade que absolutamente n\u00e3o existia quando eu voltei dos Estados Unidos, em 1960. Essa comunidade [que estuda cristalografia] \u00e9 extremamente ativa. Eu fico muito feliz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil&nbsp;<\/strong>&#8211; A senhora poderia contar um pouco mais das experi\u00eancias internacionais que teve ao longo da carreira?<br><strong>Yvonne Mascarenhas<\/strong>&nbsp;&#8211; A primeira foi na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde eu tive uma sorte incr\u00edvel de encontrar o professor Ernesto Hamburger. Ele estava fazendo f\u00edsica nuclear, que era coisa da moda na \u00e9poca.<br>Eu estava muito desanimada porque a minha bolsa era para uma outra institui\u00e7\u00e3o l\u00e1 de Pittsburgh, a Carnegie Tech. A\u00ed, eu falei com ele que eu ia desistir, que eu ia fazer qualquer outra coisa, ia fazer uns cursos, umas disciplinas. Ele falou: &#8216;n\u00e3o, mas o melhor curso de cristalografia dos Estados Unidos \u00e9 aqui, na Universidade de Pittsburgh&#8217;.<br>Eu fui l\u00e1 e encontrei o chefe do laborat\u00f3rio, um ingl\u00eas maravilhoso, o George Jeffrey, que relutou um pouquinho, mas depois me aceitou. Sem nenhuma burocracia, eu usei a minha bolsa da Fulbright e, em vez de ir no Carnegie Tech, eu usei trabalhando no laborat\u00f3rio do professor Jeffrey, l\u00e1 na Universidade de Pittsburgh.<br>Foi uma maravilha, porque ali eu tive contato direto, havia um bom laborat\u00f3rio, com as t\u00e9cnicas daquela \u00e9poca, de 1960 \u2013 que era muito antes da automa\u00e7\u00e3o, e tudo isso, mas com gente muito competente. Meu orientador era um cara muito bacana, Brian Craven, um cristal\u00f3grafo da Nova Zel\u00e2ndia radicado nos Estados Unidos, e que me botou para trabalhar, nem querendo saber quanto eu sabia de cristalografia nem de raio x.<br>Eu estava em um ambiente muito bom, com aquele monte de alunos ali, em que um ensinava o outro . Fui aprendendo e consegui trazer o conhecimento, que eu posso dizer que n\u00e3o era muito profundo, mas era razo\u00e1vel para come\u00e7ar. E a\u00ed comecei o laborat\u00f3rio de cristalografia l\u00e1 em S\u00e3o Carlos [interior de S\u00e3o Paulo].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;&#8211; A senhora voltou dos Estados Unidos e j\u00e1 foi para S\u00e3o Carlos?<br><strong>Yvonne Mascarenhas<\/strong>&nbsp;&#8211; N\u00e3o, eu fui para S\u00e3o Carlos, passei l\u00e1 uns quatro, cinco anos, a\u00ed fui para Pittsburgh. Depois que me graduei, conseguimos emprego, eu e o S\u00e9rgio [marido], para trabalhar na Universidade de S\u00e3o Paulo, no&nbsp;<em>campus&nbsp;<\/em>de S\u00e3o Carlos, onde tinha uma escola de engenharia. Ent\u00e3o, eu e ele, depois que trabalhamos l\u00e1 uns 4, 5 anos, conseguimos um afastamento, fomos passar um ano nos Estados Unidos com bolsa Fulbright, uma bolsa americana [organiza\u00e7\u00e3o internacional vinculada aos governos do Brasil e dos Estados Unidos].<br>Com isso, passamos l\u00e1 quase dois anos. Quando acabou a bolsa Fulbright, o pr\u00f3prio cara do meu laborat\u00f3rio, o Jeffrey, me ofereceu uma bolsa de um contrato dele. E a mesma coisa aconteceu com o S\u00e9rgio, l\u00e1 do Carnegie Tech. E criamos \u00f3timos amigos nessa \u00e9poca, foi maravilhoso. A\u00ed ficamos l\u00e1 de meados de 59 at\u00e9 o fim de 60 e voltamos para S\u00e3o Carlos.<br>A cada quatro anos na USP voc\u00ea tinha direito ao que se chamava uma licen\u00e7a-pr\u00eamio, que era equivalente a um ano letivo fora do Brasil. Fomos para a Universidade de Princeton, depois eu fui para Boston, para a Universidade de Harvard, e depois, finalmente, a quarta sa\u00edda, fui para a Universidade de Londres, onde passei um tempo muito bom, tendo um bom contato com cristalografia de prote\u00ednas, que era uma coisa que me interessava, dif\u00edcil, muito dif\u00edcil, mas que me deu um banho de cristalografia de prote\u00ednas.<br>Voltei para o Brasil, comecei a tentar fazer coisas com prote\u00ednas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil&nbsp;<\/strong>&#8211; Qual a import\u00e2ncia para a senhora de ter recebido Pr\u00eamio Carolina Bori Ci\u00eancia &amp; Mulher da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia?<br><strong>Yvonne Mascarenhas<\/strong>&nbsp;&#8211; Eu acho que foi uma ideia brilhante da Carolina [Bori, que foi presidente da SBPC], fazer essa premia\u00e7\u00e3o, porque as mulheres est\u00e3o tendo um acesso, mas ainda falta muito para elas realmente terem disposi\u00e7\u00e3o de entrar nessas carreiras mais dif\u00edceis, lutar pelos seus direitos e, principalmente, visar os postos mais elevados da fun\u00e7\u00e3o.Por exemplo, quando chegam \u00e0 universidade, elas muitas vezes fazem mestrado, doutorado, \u00e0s vezes, fazem postdoc, mas, depois, na hora da competi\u00e7\u00e3o, para entrar como professoras, n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil. Algumas conseguem. Agora, galgar dentro da carreira docente vai ficando mais dif\u00edcil.<br>Eu tenho a impress\u00e3o de que tem algumas que at\u00e9 j\u00e1 nem competem, porque acham que \u00e9 muito \u00e1rduo, muito dif\u00edcil vencer a barreira. Mas eu acredito que muitas j\u00e1 est\u00e3o conseguindo ser professoras titulares. Ent\u00e3o, precisa estimular para que elas n\u00e3o desistam de fazer uma carreira dentro da sua profiss\u00e3o, seja ela qual for, visando o progresso que elas merecem pela experi\u00eancia, pelo conhecimento, pelo trabalho. N\u00e3o precisa nem ser em ci\u00eancia.<br>Em qualquer empresa, a mulher tem que entrar pensando: &#8216;eu vou poder ser chefe de sess\u00e3o, eu vou poder ser gerente de n\u00e3o sei o qu\u00ea&#8217;. Eu tenho visto muitos que est\u00e3o conseguindo fazer isso. Acho que estamos no caminho certo. Ainda n\u00e3o \u00e9 o ideal, n\u00e3o \u00e9, mas estamos no caminho certo. O foco est\u00e1 l\u00e1 longe, mas estamos caminhando na dire\u00e7\u00e3o dele. Estou muito otimista quanto a isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil&nbsp;<\/strong>&#8211; A senhora teria algo a dizer para as mulheres que pensam em seguir carreira na ci\u00eancia?<br><strong>Yvonne Mascarenhas<\/strong>&nbsp;&#8211; Que as mulheres novas agora sigam o exemplo das que j\u00e1 usaram os direitos e se estimulem mais ainda para exercer esses direitos de educa\u00e7\u00e3o, de busca de uma vida econ\u00f4mica independente, sem ser dependente nem de marido, nem de pai, nem de ningu\u00e9m, e que sejam felizes com uma vida em que elas se sintam mais bem realizadas, e sem desistir da vida familiar, se elas quiserem ser m\u00e3es. Ficar frustrada porque n\u00e3o tem um filho tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 muito bom. Ficar frustrada porque n\u00e3o tem fam\u00edlia tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 muito bom. O isolamento \u00e0s vezes \u00e9 penoso para mulheres. Para algumas mulheres, \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, para outras, n\u00e3o \u00e9.<br>Ent\u00e3o, quando elas optarem por terem uma vida familiar, que saibam escolher um bom cara de cabe\u00e7a aberta. Hoje em dia, j\u00e1 existem muitos, gra\u00e7as a Deus. Quando a gente fala da libera\u00e7\u00e3o das mulheres, eu acho que \u00e9 tamb\u00e9m dos homens, de deixar de ser o preconceito contra a atividade da mulher. J\u00e1 temos muitos homens de boas fam\u00edlias, que t\u00eam essa cabe\u00e7a aberta. Encontrar um bom marido com cabe\u00e7a aberta, que os dois fa\u00e7am uma vida profissional de muito sucesso e que eduquem bem seus filhos.<br>E que ela, na hora mais dif\u00edcil, que \u00e9 quando tem filho, n\u00e3o perca o foco do seu ideal profissional. Continue trabalhando firme e mantendo o foco na profiss\u00e3o bem aceso, bem vivo, para poderem se realizar e se realizarem tamb\u00e9m como m\u00e3es, como m\u00e3es de fam\u00edlia, como papel social. Quando a mulher tem filhos, come\u00e7a a ter um papel social muito maior. Tem que se preocupar com a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e tudo mais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil&nbsp;<\/strong>&#8211; A senhora teve quantos filhos?<br><strong>Yvonne Mascarenhas&nbsp;<\/strong>&#8211; Eu tive quatro. Quatro filhos. Quando eu fui para Pittsburgh, aquela senhora que est\u00e1 comigo [aponta para a filha do outro lado da sala], a Ivoninha, ela tinha 3 anos e o irm\u00e3o dela, 4. Levei, coloquei no jardim de inf\u00e2ncia, no&nbsp;<em>kindergarten<\/em>&nbsp;[jardim de inf\u00e2ncia], eles ficavam quase o tempo todo l\u00e1, eu tinha que sair correndo, \u00e0s 4h, para pegar eles. Nem precisava porque tinha uma condu\u00e7\u00e3o que levava eles para casa.<br>Eu ia trabalhando o que dava para trabalhar, chegava em casa, fazia jantar, cuidava um pouco da casa. No fim de semana, cuidava da roupa, da limpeza, mas isso da\u00ed eu fiz sem nunca deixar de fazer a coisa que me interessava, que era a cristalografia. E todas as vezes foi assim. Sempre levamos nossos filhos junto [dois dos filhos de Yvonne s\u00e3o falecidos]<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: N\u00e1dia Franco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Forma\u00e7\u00e3o de cientistas marca trajet\u00f3ria de Yvonne Mascarenhas Por Daniel Mello \u2013 Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":77594,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17,1],"tags":[],"class_list":["post-77593","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-outras-noticias","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77593","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77593"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77593\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77595,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77593\/revisions\/77595"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77594"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvc16.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}