Tragédia do dia 15 de fevereiro de 2022 completa um ano hoje (15). Famílias das 235 vítimas da chuva permanecem de luto

Nesta quarta-feira, dia 15 de fevereiro, completa um ano da maior tragédia socioambiental já registrada em Petrópolis, no Rio de Janeiro. As fortes chuvas castigaram o Centro Histórico e regiões da cidade. A data é para muitos um dia comum, mas ficou marcada no calendário e na memória de quem sobreviveu. Foram 235 mortos entre soterramentos e afogamentos na enchente. Hoje, a saudade de quem se foi e o retorno aos locais do desastre são um desafio para as famílias.

Esse é o caso de Jussara Aparecida que perdeu dois dos quatro filhos, no deslizamento na região do Chácara Flora. Giulia Luiz Ribeiro, de 18 anos, e Anthony Luiz Borges, de apenas 2 anos, foram encontrados sob os escombros nove dias após a catástrofe. Ela, os outros dois filhos e a mãe foram resgatados por vizinhos.

“Dois dias antes das chuvas, estava a vizinhança toda comemorando a vida, fizemos churrasco, dançamos e nos divertimos. Estávamos todos felizes. Parece que aquele dia era nossa despedida e nem imaginávamos. O dia 15 foi o pior dia da minha vida. Eu e minha família estávamos em casa quando ouvimos o estrondo das pedras caindo, mas não deu tempo de corrermos. Do nada, a casa desmoronou. O meu sonho era ver minha filha mais velha se formar, casar e ter filhos. E tudo isso foi tirado de mim. Não me importo com a casa que perdi, eu só desejo ter os meus filhos de volta. Faz seis meses que eu não pisava aqui no que sobrou da minha casa, porque eu não conseguia olhar para cá e não reviver aquele momento doloroso. Eu só estou viva ainda, porque tenho mais dois filhos para criar e não é justo eles perderem a mãe. Hoje em dia, a rua está abandonada. Onde se ouvia o som de crianças, animais e música, hoje reina o silêncio do luto”, conta Jussara, entre lágrimas.

A Chácara Flora permanece quase que com o mesmo cenário de destruição daquele 15 de fevereiro. Em outubro do ano passado, a equipe do Correio Petropolitano esteve no local denunciando os problemas relatados pelas vítimas e para cobrar do poder público ações efetivas de recuperação. Inclusive, boa parte da reportagem foi gravada em cima dos escombros do que antes eram casas, ruas e o pequeno comércio de bairro. Em cima de histórias que foram soterradas e que hoje são apenas lembranças. Quem nasceu e cresceu ali lamenta o abandono por parte dos governos. Como se não bastasse, muitas casas que antes eram consideradas seguras, hoje são classificadas como de risco e mesmo assim abrigam famílias que não tiveram para onde ir. Dezenas de moradores retornaram para as casas interditadas.

A auxiliar de limpeza, Ivonice Souza, estava trabalhando no dia 15 de fevereiro de 2022, quando recebeu a notícia de que havia perdido os dois filhos adolescentes e sua mãe soterrados na barreira. Ela também perdeu a casa e atualmente vive com o benefício do Aluguel Social. A tristeza de não poder abraçar os entes que tanto amava e que morreram naquele dia, fica ainda maior ao ver que ainda não existe um projeto de reconstrução para o bairro. “O luto é uma dor que o remédio não cura. Eu sinto no meu corpo a dor de ter perdido minha família e de retornar ao local onde morreram, e ver que continua igual. Na época de eleição, o prefeito veio, fez promessas, pediu votos e agora ele não faz nada pela população. A gente espera tanto dos nossos governantes e somos desapontados”, desabafa Ivonice.

As casas de Alessandra Corrêa, técnica de enfermagem, e Ednea de Fatima, aposentada, foram destruídas pela barreira. As antigas vizinhas reclamam das dificuldades enfrentadas para conseguir auxílio psicológico, e sobre a insegurança por ainda viverem em áreas consideradas de risco. “Um ano depois, a única diferença que vejo é que removeram as pedras para o canto da rua. Aqui eu perdi meu irmão que estava em casa fazendo obra. No dia, quando tudo caiu, eu só consegui sair dos destroços porque a geladeira segurou parte da construção. Desde então, a minha casa foi destruída, vivo de aluguel social com meu marido e meu filho”, lamenta Alessandra.

Mesmo com o passar dos anos, a dor ao reviver momentos de desespero sempre estará presente. E as vítimas da falta de um plano de prevenção e de um governo despreparado jamais serão esquecidas.

Por Larissa Martins

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