Lideranças religiosas debatem a intolerância em Petrópolis
Nelson Mandela já dizia que “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, sua origem, ou por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Diante dessa afirmação é possível deduzir que “o que não se sabe, não se entende”. A intolerância religiosa é uma forma de preconceito por conta da religião seja ela qual for. Ocorre quando uma pessoa discrimina a outra, por ter uma crença diferente da dela. Conforme o relatório da Unesco, houve uma crescente de casos de racismo e intolerância religiosa em todo o Estado do Rio nos últimos anos.
Durante o ano de 2021, as cidades de Petrópolis, Nova Friburgo e Teresópolis registraram ataques em terreiros e igrejas, tendo como justificativa a diferença dos dogmas pregados nos locais em parâmetro com sua própria crença. Entre as violências cometidas em todo o estado, as mais usuais foram depredação de estátuas ou imagens, insultos, injúria racial, agressões físicas e difamação. Um levantamento inédito do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostra que em 2023, no estado, 34 vítimas de ultraje a culto religioso procuraram uma delegacia de polícia para registrar o crime.
A tipificação criminal é determinada pela ridicularização pública, impedimento ou perturbação de cerimônia religiosa. No total, as delegacias de Polícia Civil registraram aproximadamente 3 mil crimes que podem estar relacionados à intolerância religiosa. Nesse número estão incluídos injúria por preconceito (2.021 vítimas) e preconceito de raça, cor, religião, etnia e procedência nacional.
Frente ao cenário descrito, a delegada Rita Salim, titular da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), explica que a intolerância religiosa é um crime que fere a liberdade e a dignidade humana e diz que a melhor forma de combater este mal é a conscientização da necessidade do respeito à diversidade da crença, independentemente das escolhas e concepções religiosas.
Buscando ouvir diversos nichos religiosos e suas visões sobre o tema, o Correio entrevistou representantes de diferentes religiões.
Islamismo
O presidente da comunidade Ahmadia, Imã Wasim Ahmad Zafar, relatou que muitas pessoas olham com maus olhos para o islã, por conta de diversos preconceitos ligados à religião. As pessoas normalmente entrelaçam a crença com ataques de violência, como o terrorismo. Ele revela que recentemente essa questão ressurgiu por conta da guerra entre Israel e Palestina.
“Na última semana promovemos uma atividade no Centro, com uma tenda, onde estavam expostos diversos livros e o sagrado Alcorão. Estávamos explicando aos indivíduos que se interessassem em saber mais sobre o Islã. Nessa situaçãon veio uma senhora brava, e proferindo palavras de ódio, nos questionando o porquê estávamos ali, ligando a nossa presença com a guerra. Explicamos para ela que o Islã não tem culpa do que grupos extremistas fazem. A questão é deles e não da religião. Após nos ouvir, ela se acalmou e entendeu um pouco mais sobre”, relatou.
Imã Wasim Ahmad Zafar continua dizendo que todas religiões seguem um só caminho, para o bem, “Você pode pegar diversas estradas para chegar em um único ponto. Igual descer para o Rio, tem como passar pela Serra Velha e Serra Nova, e mesmo assim, chegar lá. Assim são as religiões, todos os caminhos levam a Deus no final”, disse.
Umbanda
A Umbanda é uma religião de matriz africana que cultua os orixás e tem na sexta-feira o dia de Oxalá. Em uma dessas sextas-feiras, o umbandista Guilherme Freitas sofreu um ato de intolerância religiosa, ao entrar em um carro de aplicativo. Guilherme relata que, assim que entrou no carro, o motorista agiu de forma preconceituosa e colocou na rádio algumas músicas cristãs num volume exacerbado. Quando ele pediu para baixar, o motorista rebateu o pedido, dizendo que se fosse “música de macumba”, ele gostaria. O umbandista fala que respeita todas as crenças, e gostaria de ser respeitado.
Evangélicos
Para o pastor da Igreja Metodista Wesleyana, Misael Amaral, a doutrina bíblica ensina a pessoa ser respeitosa com àqueles que professa uma fé diferente. “Procuramos buscar sempre a paz, afinal Cristo é o príncipe da Paz, como as Sagradas Escrituras declaram”, disse.
Em relação a sofrer atos de intolerância, o pastor falou que já passou por isso no próprio ambiente universitário, em uma universidade pública onde realizou o doutorado. “Foi uma situação de constrangimento e desconforto. Por nestes momentos, normalmente, ser generalizado com outras pessoas que, às vezes, agem com intolerância”, relatou.
Budismo
A representante do budismo Nichiren Daishonin, Mariana Lima, fala que a religião tem como essência prezar cada ser humano. “A filosofia de Nichiren é universal, porque ela responde os mistérios da vida, do universo, toca as pessoas oferecendo conforto espiritual, consciência sobre o esforço de cada pessoa”, expressa.
Segundo Mariana, ela não sofreu intolerância religiosa, porém percebe que nem sempre todas as pessoas são receptivas quando se fala de uma religião que inicialmente começou no oriente, pois possui características distintas das religiões ocidentais.
Para ela, o budismo de Nichiren Daishonin preza por cada ser humano e respeita cada um, prezando a felicidade de todos e dos que estão ao seu redor.
Baseado nessas características, o filósofo, escritor e poeta Daisaku Ikeda deixou para os praticantes da crença e a sociedade a seguinte orientação. “As religiões devem tentar entender umas às outras. Assim, serão capazes de descobrir muitos aspectos em comum. Com o aprendizado mútuo entre as religiões, é possível usá-lo para o auto aprimoramento, trabalhar e aprender juntas sobre como guiar o povo para longe do sofrimento”.
Por *Leandra Lima/Foto: rede social

